À medida
que se espalha a consciência da debacle total das nossas universidades públicas
e privadas, cresce o número de brasileiros que, valentemente, buscam estudar em
casa e adquirir por esforço próprio aquilo que já compraram de um governo
ladrão – ou de ladrões empresários de ensino – e jamais receberam.
Quase dez anos atrás a Fundação Odebrecht
– no mais, uma instituição admirável – me perguntou o que eu achava de uma
campanha para cobrar do governo um ensino de melhor qualidade. Respondi que era
inútil. De vigaristas nada se pede nem se exige. O melhor a fazer com o sistema
de ensino era ignorá-lo. Se queriam prestar ao público um bom serviço,
acrescentei, que tratassem de ajudar os autodidatas, aquela parcela heróica da
nossa população que, de Machado de Assis a Mário Ferreira dos Santos, criou o
melhor da nossa cultura superior. O meio de ajudá-los era colocar ao seu
alcance os recursos essenciais para a auto-educação, que é, no fim das contas,
a única educação que existe. Cheguei a conceber, para isso, uma coleção de
livros e DVDs que davam, para cada domínio especializado do conhecimento, não
só os elementos introdutórios indispensáveis, mas as fontes para o
prosseguimento dos estudos até um nível que superava de muito o que qualquer
universidade brasileira poderia não só oferecer, mas até mesmo imaginar.
Minha sugestão foi gentilmente engavetada,
e, com ou sem campanha de cobrança, o ensino nacional continuou declinando até
tornar-se aquilo que é hoje: abuso intelectual de menores, exploração da boa-fé
popular, crime organizado ou desorganizado.
Na mesma medida, o número de cartas
desesperadas que me chegam pedindo ajuda pedagógica multiplicou-se por dez, por
cem e por mil, transcendendo minha capacidade de resposta, forçando-me a
inventar coisas como o programa True Outspeak,
o Seminário de Filosofia
Online e
outros projetos em andamento. E ainda não dou conta da demanda. As cartas
continuam vindo, e o pedido que mais se repete é o de uma bibliografia
filosófica essencial. É pedido impossível. O primeiro passo nessa ordem de estudos
não é receber uma lista de livros, mas formá-la por iniciativa própria, na base
de tentativa e erro, até que o estudante desenvolva uma espécie de instinto
seletivo capaz de orientá-lo no labirinto das bibliotecas filosóficas. O que
posso fazer, isto sim, é fornecer um critério básico para você aprender a
discernir à primeira vista, entre os autores que falam em nome da filosofia,
quais merecem atenção e quais seria melhor esquecer.
Tive a sorte de adquirir esse critério
pelo exemplo vivo do meu professor, Pe. Stanislavs Ladusãns. Quando ele atacava
um novo problema filosófico – novo para os alunos, não para ele –, a primeira
coisa que fazia era analisá-lo segundo os métodos e pontos de vista dos
filósofos que tinham tratado do assunto, em ordem cronológica, incorporando o
espírito de cada um e falando como se fosse um discípulo fiel, sem contestar ou
criticar nada. Feito isso com duas dúzias de filósofos, as contradições e
dificuldades apareciam por si mesmas, sem a menor intenção polêmica. Em seguida
ele colocava em ordem essas dificuldades, analisando cada uma e por fim
articulando, com os elementos mais sólidos fornecidos pelos vários pensadores
estudados, a solução que lhe parecia a melhor.
A coisa era uma delícia, para dizer o
mínimo. Num relance, compreendíamos o sentido vivo daquilo que Aristóteles
pretendera ao afirmar que o exame dialético tem de começar pelo recenseamento
das “opiniões dos sábios” e tentar articular esse material como se fosse uma
teoria única. Cada filósofo tem de pensar com as cabeças de seus antecessores,
para poder compreender o status quaestionis – o estado em que a questão
chegou a ele. Fora disso, toda discussão é puro abstratismo bocó, opinionismo
gratuito, amadorismo presunçoso.
A conclusão imediata era a seguinte: a
filosofia é uma tradição e a filosofia é uma técnica. Chega-se ao domíno da
técnica pela absorção ativa da tradição e absorve-se a tradição praticando a
técnica segundo as várias etapas do seu desenvolvimento histórico.
Note-se
a imensa diferença que existe entre adquirir pura informação, por mais erudita
que seja, sobre as idéias de um filósofo, e levá-las à prática fielmente, como
se fossem nossas, no exame de problemas pelos quais sentimos um interesse
genuíno e urgente. A primeira alternativa mata os filósofos e os enterra num
sepulcro elegante. A segunda os revive e os incorpora à nossa consciência como
se fossem papéis que representamos pessoalmente no grande teatro do
conhecimento. É a diferença entre museologia e tradição. Num museu pode-se conservar muitas
peças estranhas, relíquias de um passado incompreensível. Tradição vem do latim traditio, que significa
“trazer”, “entregar”. Tradição significa tornar o passado presente através da
revivescência das experiências interiores que lhe deram sentido. A tradição
filosófica é a história das lutas pela claridade do conhecimento, mas como o
conhecimento é intrinsecamente temporal e histórico, não se pode avançar nessa
luta senão revivenciando as batalhas anteriores e trazendo-as para os conflitos
da atualidade.
Muitas pessoas, levadas por um amor
exagerado à sua independência de opiniões (como se qualquer porcaria saída das
suas cabeças fosse um tesouro), têm medo de deixar-se influenciar pelos
filósofos, e começam a discutir com eles desde a primeira linha, isto quando já
não entram na leitura armadas de uma impenetrável carapaça de prevenções.
Com o Pe. Ladusãns aprendíamos que, no
conjunto, as influências se melhoram umas às outras e até as más se tornam
boas. Incorporadas à rede dialética, mesmo as cretinices filosóficas mais
imperdoáveis em aparência acabam se revelando úteis, como erros naturais que a
inteligência tem de percorrer se quer chegar a uma verdade densa, viva, e não
apenas acertar a esmo generalidades vazias.
Algumas regras práticas decorrem dessas
observações:
1.
Quando você se defrontar com um filósofo, em pessoa ou por escrito, verifique
se ele se sente à vontade para raciocinar junto com os filósofos do passado,
mesmo aqueles dos quais “discorda”. A flexibilidade para incorporar mentalmente
os capítulos anteriores da evolução filosófica é a marca do filósofo genuíno,
herdeiro de Sócrates, Platão e Aristóteles. Quem não tem isso, mesmo que emita
aqui e ali uma opinião valiosa, não é um membro do grêmio: é um amador, na
melhor das hipóteses um palpiteiro de talento. Muitos se deixam aprisionar
nesse estado atrofiado da inteligência por preguiça de estudar. Outros, porque
na juventude aderiram a tal ou qual corrente de pensamento e se tornaram
incapazes de absorver em profundidade todas as outras, até o ponto em que já
nada podem compreender nem mesmo da sua própria. Uma dessas doenças, ou ambas,
eis tudo o que você pode adquirir numa universidade brasileira.
2. Não
estude filosofia por autores, mas por problemas. Escolha os problemas que
verdadeiramente lhe interessam, que lhe parecem vitais para a sua orientação na
vida, e vasculhe os dicionários e guias bibliográficos de filosofia em busca
dos textos clássicos que trataram do assunto. A formulação do problema vai
mudar muitas vezes no curso da pesquisa, mas isso é bom. Quando tiver
selecionado uma quantidade razoável de textos pertinentes, leia-os em ordem
cronológica, buscando reconstituir mentalmente a história das discussões a
respeito. Se houver lacunas, volte à pesquisa e acrescente novos títulos à sua
lista, até compor um desenvolvimento histórico suficientemente contínuo. Depois
classifique as várias opiniões segundo seus pontos de concordância e
discordância, procurando sempre averiguar onde uma discordância aparente
esconde um acordo profundo quanto às categorias essenciais em discussão. Feito
isso, monte tudo de novo, já não em ordem histórica, mas lógica, como se fosse
uma hipótese filosófica única, ainda que insatisfatória e repleta de
contradições internas. Então você estará equipado para examinar o problema tal
como ele aparece na sua experiência pessoal e, confrontando-o com o legado da
tradição, dar, se possível, sua própria contribuição original ao debate.
É assim que se faz, é assim que se estuda
filosofia. O mais é amadorismo, beletrismo, propaganda política, vaidade
organizada, exploração do consumidor ou gasto ilícito de verbas públicas.
- Artigo do Olavo de Carvalho
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