Muitos elementos científicos, simbólicos,
mitológicos e artísticos que foram desenvolvidos na Suméria e no Egito, foram
depois incorporados pela Filosofia Grega. O que a Filosofia Grega vai trazer de
novidade é — o que já foi assinalado por vários autores como Bruno Snell e Eric
Voegelin — a idéia da alma humana e do autoconhecimento humano como princípio
organizador, quer dizer, não é mais a ordem cósmica que funciona como modelo
organizador da sociedade, mas uma alma humana que busca se completar, busca sua
própria maturidade, sua própria perfeição e a partir daí ela observa a
sociedade.
Vemos, por exemplo, que Sócrates julga a
sociedade — ninguém fez isso antes dele — ele julga a sociedade a partir de sua
própria experiência, a experiência de buscar a verdade dentro de si. Ele
encontra um novo princípio ordenador que não é acessível imediatamente à
sociedade como um todo, mas somente ao indivíduo que se entrega a esta tarefa.
Quando ele busca saber a verdade sobre si mesmo e sobre cada um dos tópicos que
estão em discussão publicamente, Sócrates está se entregando a um exercício que
não corresponde a nenhuma função pública existente. Então é a consciência do
filósofo que se transforma na nova unidade de medida para se julgar os atos
sociais. Claro que não se trata de uma mera opinião individual, mas o exercício
de uma busca interior da verdade com persistência e honestidade até o fim. É
assim que o filósofo conquista uma espécie de autoridade intelectual — notem
bem, apenas intelectual — superior a da sociedade. Apenas intelectual, porque
Sócrates não se considera de fato superior à sociedade ao ponto de querer
mudá-la. Ele não está fazendo um movimento de mudança social, — Platão, na
juventude, quis fazer isso e acabou percebendo que era besteira — mas Sócrates
está apenas fornecendo um espelho para a sociedade, tanto é que reconhece a autoridade
que a sociedade tem sobre ele quando, ao ser condenado à morte, aceita a
sentença. Ele não quer a desordem social, quer apenas elevar o nível de
consciência da sociedade. Já hoje em dia, qualquer moleque de 14 anos acha que
pode transformar o mundo. Sócrates não queria tanto assim.
Se formos perguntar pelo porque essa
condição só aparece na Grécia, eu diria que um dos motivos, que eu considero
evidentemente o mais importante, foi o fato de que ali havia muita disputa
entre os cargos públicos no sistema democrático vigente. A ocupação desses
cargos públicos dependia da capacidade de persuasão que as pessoas tivessem,
então se desenvolve ali, ao longo de muitos séculos, a arte da retórica, que
era, evidentemente, a arte do político. Foi quando a multiplicação dos
discursos retóricos, todos eles eficientes, criou uma massa crítica suficiente
para que as contradições do conjunto aparecessem, entra Sócrates na história.
Atenas já tinha uma série de discursos públicos altamente persuasivos, todos
eles parecendo verídicos, mas que são contraditórios entre si. De certo modo,
essa situação requer outro tipo de atividade que ainda não existia, que é a
comparação desses discursos não do ponto de vista de sua eficiência, mas de sua
veracidade, o que é exatamente o que Sócrates vai fazer. A intensa atividade
política e a existência de uma técnica política — a arte retórica — altamente
desenvolvida possibilitou eminentemente o surgimento da Filosofia em Atenas. O
que eram os sofistas? Professores de retórica altamente preparados.
Primeiro, a existência de uma camada de
pessoas muito cultas, muito preparadas na arte retórica, na arte literária etc.
e, segundo, tinha-se um acúmulo suficiente de contradições para despertar o
desejo de algo mais. Acho que essa foi a condição principal.
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