Estranguladas pelo Exército, odiadas pelo povo colombiano, reduzidas a um décimo de seu
contingente e, por fim, desmoralizadas pelo resgate espetacular de quinze
reféns, as Farc estão seguindo o manual de instruções e fazendo exatamente o
que a guerrilha brasileira fez em circunstâncias idênticas: partiram para o
gerenciamento de danos e tentam desesperadamente transformar a derrota militar
em vitória política.
Se bem sucedida, essa operação terá sido,
no fim das contas, o triunfo mais espetacular que a gangue poderia ter
desejado. Todos os clássicos da guerra revolucionária explicam que guerrilhas
não têm por alvo derrotar o adversário no campo de batalha, mas forçá-lo a
aceitar exigências políticas. Esse é o único objetivo a que podem aspirar e a
única razão de ser da sua existência – e, para isso, a derrota militar pode ser
ainda melhor do que a vitória. O exemplo do Vietnã ainda está na memória de
todos, mas não precisamos ir buscar tão longe: nosso governo atual não é outra
coisa senão as guerrilhas dos anos 60-70 transfiguradas em poder político pelas
boas graças da anistia.
Não é, pois, de estranhar que, sob
pretextos humanitários de uma hipocrisia abjeta, os apelos à desmobilização das
Farc em nome da "luta pacífica" se espalhem por toda parte com a simultaneidade
exemplar de uma orquestra bem afinada.
Quem
soa a nota dominante é, como não poderia deixar de ser, o sr. presidente da
República. Fingindo pena dos reféns mantidos em cativeiro e um ardente desejo
de "paz", ele sugere que as Farc abandonem a luta armada e sigam o
exemplo do seu partido.
Para uma organização que matou trinta mil
pessoas e manteve três mil seqüestrados presos em condições sub-humanas durante
quase uma década, ser de repente admitida como partido político e
automaticamente anistiada de todos os seus crimes é mais do que um presente
generoso: é a vitória perfeita, a realização integral dos seus sonhos mais
lindos.
A gratidão que as Farc têm por Lula e por
seu partido expressou-se da maneira mais eloqüente na mensagem que enviaram a
eles na última assembléia do Foro, em 2007, onde se derramavam em louvores a ambos
por terem resgatado do perigo de extinção o movimento comunista na América
Latina. Com seu pronunciamento recente, o sr. Presidente da República não faz
senão dar continuidade à sua obra salvadora, que chegará ao seu ponto
culminante no momento em que uma infinidade de crimes hediondos for premiada
com a anistia geral e a elevação dos delinqüentes à posição de governantes
legais. Governantes que, decorrido algum tempo, poderão então, com toda a
calma, serenamente, metodicamente, ir destruindo um por um aqueles que os
anistiaram, exatamente como faz hoje a guerrilha brasileira.
Ao sr. presidente pouco interessa que,
entre as vítimas das Farc, estejam os funcionários da nossa Embaixada feitos em
pedaços pelo atentado à bomba ali praticado em 1993, os milhões de crianças
brasileiras levadas à autodestruição pelas drogas que as Farc distribuem no
país, ou os nossos concidadãos mortos a tiros, nas ruas, por quadrilheiros
locais que as Farc armaram e treinaram. Tudo o que lhe interessa é assegurar um
futuro brilhante para aqueles seus companheiros de militância -- assassinos,
seqüestradores e narcotraficantes.
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