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sexta-feira, 28 de outubro de 2016

As duas globalizações

     O noticiário diário, controlado por pessoas ideologicamente comprometidas com as ideias da esquerda, fala-nos de globalização como se o léxico tivesse um único significado. Com efeito, quando falam em globalização normalmente os órgãos de imprensa se referem a aspectos do comércio internacional e transações financeiras, movimento de pessoas e imigração, sem dar maiores explicações sobre outras coisas que estão implícitas na expressão. Quase nunca se vê no noticiário o aspecto político da outra globalização, aquela que propõe a integração política de todas as nações do Globo e a extinção equivalente dos        Estados nacionais como entidade autônoma.
     Esse processo político é, na verdade, a maior ameaça que paira sobre a humanidade desde a origem, uma vez que tal entidade política mundial não poderia ser outra coisa que não uma ditadura de uma elite burocrática iluminada que governaria acima e além dos anseios de liberdade das pessoas. 

quinta-feira, 27 de outubro de 2016

"A reeducação das emoções é impossível sem passar primeiro pela reeducação da inteligência, de modo que esta assuma, pouco a pouco, o comando da alma inteira e se torne o centro da personalidade em vez de um penduricalho inútil a serviço da autojustificação histérica. Ser inteligente é, nesse sentido, como já lembrava Lionel Trilling, a primeira das obrigações morais. Sem inteligência, até as virtudes mais excelsas se tornam caricaturas de si mesmas''.


Olavo de Carvalho

quarta-feira, 26 de outubro de 2016

A busca da verdade. Penso, logo existo em Descartes

Qual é a maneira correta de investigar o problema da verdade? É rastrear como a noção da verdade passou a existir para você. Talvez você não chegue a um conceito da verdade, mas terá uma noção suficientemente clara para poder reconhecê-la, quando ela se apresentar de novo. É isso aí que eu chamo de método da confissão. A confissão começa pelo procedimento oposto àquele que se tornou comum depois de René Descartes: em vez de colocar tudo em dúvida, você vai começar por reconhecer o que você já sabe e o que não pode deixar de saber para poder colocar essa questão que você está colocando.

Descartes estava procurando uma afirmação que fosse verdadeira em todas as circunstâncias. Se é verdadeira em todas as circunstâncias, então não depende de nenhuma delas — era isso o que ele estava procurando. Mas nós não estamos procurando uma afirmação, um juízo. Nós estamos procurando lançar luz sobre a nossa experiência real; procurando elucidar para nós mesmos o que de fato aconteceu. Descartes, quando busca essa sentença infalível,  de certo modo tenta isolá-la de todas as outras, isto é, uma sentença que não depende de mais nenhuma outra. Então ela chega à conclusão: “Eu penso, logo existo. Todas as vezes que eu penso isso, isso é verdade. Ou seja, se não existisse mais nada além de mim mesmo pensando, isso continuaria sendo verdade; e se eu jamais tivesse pensado, isso continuaria sendo verdade, porque, quando eu pensasse a primeira vez, eu existiria.” É isso o que ele está procurando: uma verdade totalmente independente de qualquer condição externa.

segunda-feira, 24 de outubro de 2016

Escolas

A partir dos anos 60, em que as universidades são ocupadas por esse pessoal militante, gramsciano etc., aí é que se torna assim. Pior ainda, porque o objetivo ali não é despertar efetivamente a capacidade intelectual do sujeito, mas moldá-la para que ele se comporte desta ou daquela maneira. Para que ele se integre no grupo, diga as mesmas coisas que o grupo está dizendo, sinta as mesmas coisas e seja facilmente mobilizável para esta ou aquela reivindicação ou organização política etc. Podemos dizer que, no Brasil, praticamente toda a educação se transformou em educação social e adestramento.

Quando você vê as coisas que aconteceram na semana passada na USP, aqueles movimentos reivindicatórios, aquela coisa toda. Em nenhum momento aparece na cabeça daquelas pessoas a idéia de que aquilo é uma universidade pública e, portanto, eles não pagam nada pelo que estão recebendo, é tudo de graça. E tudo o que é de graça foi extraído dos impostos pagos não por moleques, mas por pessoas de 40, de 50 anos que estão trabalhando — que vão desde a classe média até o operariado mesmo — está todo mundo ali pagando imposto. Você não compra nada, não compra um maço de cigarro sem pagar imposto, não compra um saco de feijão sem pagar imposto. Todo mundo está pagando imposto, menos aqueles camaradas, eles só estão recebendo, quer dizer, eles não estão fazendo nada pela sociedade, eles estão recebendo tudo e de graça. E na hora em que um sujeito desses sente que tem direito a reivindicar, ele já se transformou num bandido automaticamente. [00:20] Ele não tem direito de reivindicar nada, nada, nada. Quem está recebendo de graça tem de calar a boca e fazer o que lhe mandam. Quem tem o direito de reivindicar é quem está trabalhando, é quem está produzindo.

Por exemplo, o cidadão que paga 40% de imposto tem todo o direito de fazer uma greve, de parar, de xingar o governador de Estado, xingar ministro etc. Agora, molecada que está recebendo tudo de graça, e que não contribui nem com imposto e nem com trabalho, é um absurdo que a pessoa se sinta habilitada a reivindicar. É uma coisa muito, vamos dizer... a famosa regra áurea da convivência humana, que é o segundo mandamento: “Ama a teu próximo como a ti mesmo”, que significa que você deve dar ao outro o mesmo tratamento que você deseja receber. Então naturalmente aquele que está sendo beneficiado com o ensino gratuito, e às vezes moradia gratuita e não sei que mais gratuito, assistência médica gratuita etc., ele deveria pensar: “Como eu posso reivindicar mais do que eu poderia dar? Não faz sentido isto, isto é um insulto às pessoas pobres que estão trabalhando para me manter aqui.”

Um operário de fábrica ou um trabalhador qualquer que faz uma greve ou um movimento, está reivindicando em nome daquilo que ele deu: “Eu trabalhei aqui, eu fiz isso, mais aquilo, mais aquilo, mais aquilo, e o que eu estou recebendo em troca é injusto.” Agora, o estudante que não deu absolutamente nada e que está recebendo tudo?! Como é que essas pessoas não percebem a sua verdadeira situação social? É simples: porque a própria circunstância social na qual eles vivem os ensina a encará-la não com o espírito de conhecimento e de objetividade científica, mas com o espírito de adestramento para certas atividades reivindicatórias, políticas, revolucionárias etc. Isto quer dizer que o sujeito não sabe onde ele está e não sabe o que está fazendo, ele só sabe aquilo que os seus colegas e os seus gurus acham que ele deve fazer, e que instigam nele a revolta e o ódio contra aqueles que não fazem. Isto aí é adestramento de macaco, evidentemente.

Curiosamente, embora esse tipo de atitude induza o indivíduo ao servilismo grupal mais extremo, ao ponto dele sentir que quem não pertence ao seu grupo não presta, é um fascista etc. Acabo de ver o documentário da USP, o pessoal chamando os outros de fascistas só porque os outros não queriam entrar na greve também, não queriam entrar no movimento também, até batendo nos caras. Essas pessoas foram adestradas para não saber onde estão, não saber qual é a sua verdadeira posição social, mas saber o que eles têm de fazer para serem aceitos no grupo. Embora essa educação concebida assim seja extremamente autoritária — o máximo do autoritarismo possível, onde tentar compreender a realidade é proibido e a única coisa permitida é comportar-se do jeito que se espera que você se comporte —, as pessoas acreditam que, ao contrário, elas estão lutando pela liberdade. Quando chega nesse ponto está tudo perdido, as pessoas intelectualmente se transformaram em lixo e dali nunca vai sair nada. Para um sujeito desses um dia começar a raciocinar criticamente — eles falam tanto em pensamento crítico, análise crítica etc., mas onde eles exercem essa crítica? Eles exercem essa crítica sobre coisas que nunca viram, e jamais raciocinam criticamente sobre a sua própria situação.

Por exemplo, vamos supor, quando um sujeito, num movimento desses, grita para o outro: “fascista!”. Eu digo: você imagina um aluno da USP fazendo um movimento para que o Estado lhe dê ainda mais do que já está dando, em troca de nada, e que ele vê outro lá estudando e o chama de fascista. Ele está imaginando que existe um governo nazi-fascista, um Mussolini, um Hitler, e que ele heroicamente é um membro da resistência. É claro que é uma imaginação totalmente deslocada da situação real. E se entra, por exemplo, a polícia lá um minuto, eles fazem um quebra-quebra. E se entra a polícia para parar, aí é que eles são confirmados na sua loucura: “Está vendo?! São as tropas fascistas vindo aqui para nos esmagar.” Esse pessoal passa a vida num sistema mitológico, totalmente deslocado da realidade e aprendem a jamais perceber o que elas mesmas estão fazendo.

Quando você não tem idéia de si próprio como agente produtor da situação, então você está totalmente alienado, porque, às vezes, nós não entendemos como é que a sociedade funciona e o que está acontecendo, mas, pelo menos, nós temos de saber o que nós estamos fazendo, quais são as conseqüências das nossas ações e qual é o peso delas dentro do contexto. A situação verdadeira é de "filhinhos de papai e mamãe" que estão recebendo tudo de graça em troca de absolutamente nada e que estão revoltadíssimos com o papai, com a mamãe, com a sociedade, com o maldito capitalismo, com o governo que lhes deu tudo etc. Esta é a situação real. Na cabeça deles, eles são o proletariado em luta contra a opressão fascista. É claro que estão vivendo em um teatrinho imaginário e vão passar a vida assim. E desse teatrinho imaginário vai sair todo um conjunto de mecanismos de linguagem, um conjunto de associações de idéias e de metáforas, uma retórica inteira que os vai manter dentro desse mundo ilusório, dessa segunda realidade pelo resto de suas vidas. Alguns chegam aos sessenta, setenta anos e ainda estão metidos nisso


terça-feira, 18 de outubro de 2016

     Usados como pejorativos, “fascismo”, “inquisição”, “medieval”, “retrocesso”, “em pleno século XXI” etc. são termos do vocabulário demagógico mais baixo e mais grosso que se pode conceber. Qualquer pretenso intelectual que os use assim só prova a pobreza do seu universo lingüístico.
     O fascismo não foi fundado nem por burgueses, nem por proletários, nem pela “classe média”. Foi fundado por soldados que voltavam do front de batalha, traumatizados pela visão direta da crueldade e do horror, e que, sentindo-se deslocados no teatrinho da ordem burguesa, acharam que era uma boa idéia atear fogo em tudo, transformando a política em guerra. Não existe NENHUMA possibilidade de compreender o fascismo em termos marxistas de “luta de classes”: essa hipótese foi inventada pela URSS para camuflar, sob densas camadas de retórica e propaganda, a sua colaboração com o nazismo.
      Já estou com o saco cheio de intelectuais de merda (de esquerda ou de direita) que usam “fascismo” como puro insulto, aplicando-o a coisas e pessoas que nada têm a ver com fascismo nenhum. Esse termo designa um conceito histórico descritivo que é de suma importância para a compreensão do processo político, e não deve ser prostituído para servir a fins de propaganda barata.



Metafísica da História: o mito do "avanço-retrocesso".

                                   O anúncio da Paixão
Olavo de Carvalho
O Globo, 2 de abril de 2005

     Em artigo publicado esta semana, o teólogo Hans Kung, após repetir da boca para fora as homenagens de praxe aos méritos de João Paulo II, acusa o papa de “retrocesso”, delito equivalente, na mentalidade politicamente correta, ao que na ética judaico-cristã seria o pecado de idolatria.
     A credibilidade automática do topos “avanço-retrocesso” revela até que ponto se arraigou, na imaginação contemporânea, a crença dogmática numa vulgar e estereotipada metafísica da História, na qual a linha dos tempos teria a obrigação de ir, invariável e mecanicamente, no sentido daquilo que Gramsci denominava “a terrestrialização absoluta do pensamento”, meta e valor supremo da existência. Nesse quadro, quem quer que insista em acenar com verdades universais ou valores permanentes se torna ipso facto culpado de “retrocesso obscurantista”.
    
     Embora todo o saber histórico existente seja um desmentido cabal dessa premissa, ela continua firmemente ancorada no solo da sabedoria convencional, a tal ponto que o apelo à sua autoridade basta para validar automaticamente qualquer argumento sobre o que quer que seja. No entender de Hans Kung, por exemplo, a obrigação primordial da Igreja seria a de amoldar-se docilmente a esse trajeto ideal, sacrificando toda verdade eterna no altar da deusa História.     Violando esse mandamento, João Paulo II tornou-se o abominável apóstolo do fundamentalismo.
      É praticamente impossível aos crentes do progressismo universal perceber que o seu dogma, além de impugnado pelos fatos sangrentos resultantes da sua aplicação em metade do mundo, é uma estupidez que não pode sequer ser concebida mentalmente sem levar a absurdidades insuportáveis.
Se há uma linha de progresso incontornável e se ela consiste na redução crescente das preocupações humanas às exigências da carne e da economia, então não há limite para essas exigências, que devem continuar crescendo indefinidamente na mesma direção, por acúmulo quantitativo sem nenhuma mudança essencial de rumo. Cabe ao

     Estado acelerar esse percurso, tornando-se o guardião das luzes contra o retrocesso obscurantista. À liberação feminista dos anos 60 deve seguir-se, portanto, a institucionalização do casamento gay, a expansão ilimitada do abortismo e a extinção da família tal como conhecida nos últimos vinte séculos. Nessa direção, os próximos passos devem ser a liberação da pedofilia, a legitimação do sadomasoquismo, a consagração da bestialidade, do homicídio voluptuoso e assim por diante. Quem quer que se oponha a essa evolução é réu de crime de “intolerância” – delito, evidentemente, intolerável. Não há nada de estranho em que o mandamento evolucionista condene à morte não só as idéias como também as pessoas que atravanquem o seu caminho. Terri Schiavo, por exemplo, tornou-se um obstáculo às deleitações sexuais de seu marido. Este representava a evolução, o progresso e as luzes; ela, a resistência fundamentalista, condenável por definição. A mudez final de um papa moribundo, no instante mesmo em que os valores que ele representava eram sacrificados na pessoa de Terri Schiavo, é o símbolo perfeito da mutação dialética em que a pregação da tolerância se converte em exigência nazista de extinção dos inconvenientes, conservando, ao mesmo tempo, seu prestígio de ideologia libertária e democrática contra a qual ninguém deve abrir a boca. No mundo ideal de Hans Kung, a liberdade e a tirania se tornam indiscerníveis. Quando o direito ao prazer se impõe contra o direito à vida, como se a vida não fosse o pressuposto do prazer, o ódio anticristão já pode ser vendido como teologia cristã sem que ninguém note a diferença.


     Muitos elementos científicos, simbólicos, mitológicos e artísticos que foram desenvolvidos na Suméria e no Egito, foram depois incorporados pela Filosofia Grega. O que a Filosofia Grega vai trazer de novidade é — o que já foi assinalado por vários autores como Bruno Snell e Eric Voegelin — a idéia da alma humana e do autoconhecimento humano como princípio organizador, quer dizer, não é mais a ordem cósmica que funciona como modelo organizador da sociedade, mas uma alma humana que busca se completar, busca sua própria maturidade, sua própria perfeição e a partir daí ela observa a sociedade.

     Vemos, por exemplo, que Sócrates julga a sociedade — ninguém fez isso antes dele — ele julga a sociedade a partir de sua própria experiência, a experiência de buscar a verdade dentro de si. Ele encontra um novo princípio ordenador que não é acessível imediatamente à sociedade como um todo, mas somente ao indivíduo que se entrega a esta tarefa. Quando ele busca saber a verdade sobre si mesmo e sobre cada um dos tópicos que estão em discussão publicamente, Sócrates está se entregando a um exercício que não corresponde a nenhuma função pública existente. Então é a consciência do filósofo que se transforma na nova unidade de medida para se julgar os atos sociais. Claro que não se trata de uma mera opinião individual, mas o exercício de uma busca interior da verdade com persistência e honestidade até o fim. É assim que o filósofo conquista uma espécie de autoridade intelectual — notem bem, apenas intelectual — superior a da sociedade. Apenas intelectual, porque Sócrates não se considera de fato superior à sociedade ao ponto de querer mudá-la. Ele não está fazendo um movimento de mudança social, — Platão, na juventude, quis fazer isso e acabou percebendo que era besteira — mas Sócrates está apenas fornecendo um espelho para a sociedade, tanto é que reconhece a autoridade que a sociedade tem sobre ele quando, ao ser condenado à morte, aceita a sentença. Ele não quer a desordem social, quer apenas elevar o nível de consciência da sociedade. Já hoje em dia, qualquer moleque de 14 anos acha que pode transformar o mundo. Sócrates não queria tanto assim.

     Se formos perguntar pelo porque essa condição só aparece na Grécia, eu diria que um dos motivos, que eu considero evidentemente o mais importante, foi o fato de que ali havia muita disputa entre os cargos públicos no sistema democrático vigente. A ocupação desses cargos públicos dependia da capacidade de persuasão que as pessoas tivessem, então se desenvolve ali, ao longo de muitos séculos, a arte da retórica, que era, evidentemente, a arte do político. Foi quando a multiplicação dos discursos retóricos, todos eles eficientes, criou uma massa crítica suficiente para que as contradições do conjunto aparecessem, entra Sócrates na história. Atenas já tinha uma série de discursos públicos altamente persuasivos, todos eles parecendo verídicos, mas que são contraditórios entre si. De certo modo, essa situação requer outro tipo de atividade que ainda não existia, que é a comparação desses discursos não do ponto de vista de sua eficiência, mas de sua veracidade, o que é exatamente o que Sócrates vai fazer. A intensa atividade política e a existência de uma técnica política — a arte retórica — altamente desenvolvida possibilitou eminentemente o surgimento da Filosofia em Atenas. O que eram os sofistas? Professores de retórica altamente preparados.


     Primeiro, a existência de uma camada de pessoas muito cultas, muito preparadas na arte retórica, na arte literária etc. e, segundo, tinha-se um acúmulo suficiente de contradições para despertar o desejo de algo mais. Acho que essa foi a condição principal.
     Você deve estudar moderadamente e no instante em que você está estudando dar tudo de si. Jean Guitton, no livro Conselhos Sobre a Vida Intelectual, diz que um dos segredos da educação intelectual é não haver a meia-dedicação. Se você está querendo prestar atenção nos estudos, mas está divagando, sonolento, não permaneça nesse estado intermediário, pare imediatamente e vá fazer outra coisa. Só estude quando estiver com interesse total. Se não tem interesse naquele assunto vá estudar um outro e se não estiver conseguindo se concentrar em nada é melhor que deixe seus estudos para o dia seguinte. Só aproveite os bons momentos. Sua produtividade será de uma ou dias horas, não passará disto.

quarta-feira, 12 de outubro de 2016

      A origem dos maiores crimes e atrocidades não é a cobiça, não é a inveja, não é o desejo de poder, não são nem mesmo os maus instintos: é o anseio pueril de uma radical transfiguração da realidade terrestre, quando, num estalar de dedos, "tudo será mais belo", como dizia Antonio Gramsci. O anseio de beleza e felicidade universais, quando desacompanhado da caridade, para com os seres humanos de carne e osso, investe os seus portadores de uma mágica autoridade moral que os imuniza contra as conseqüências de seus atos mais bárbaros e hediondos. Neste mundo, todos acabam, mais dia, menos dia, pagando pelos seus crimes, exceto os comunistas.
       Todo mundo tem medo de puni-los: medo de destruir, junto com a imagem deles, a miragem barata da felicidade universal. A verdadeira bondade humana consiste em amar o próximo num mundo mau e triste onde ele precisa de ajuda e consolo. O "mundo mais belo" é a farsa demoníaca que abole a caridade em nome de um futuro reino do amor universal.
     Só aqueles que sabem que o mundo jamais será mais belo, que a única beleza que existe neste planeta é a caridade no meio da feiúra, só esses são capazes de combater o comunismo.
- Olavo de Carvalho
      A mensagem do filósofo aos jovens estudantes, no que diz respeito à dificuldade financeira, é simples, quanto pior ficar a sua condição econômica, mais se apeguem à sua vocação intelectual. Não cedam à pressão de um mundo que quer matar em vocês o espírito à força de atormentá-los com problemas financeiros. O mundo, no sentido bíblico do termo (isto é, a sociedade mundana), só respeita quem o despreza. Na Primeira Guerra Mundial, o físico Werner Heisenberg, então um adolescente, numa cidade reduzida à miséria pelo cerco e pelos bombardeios, se escondia no porão de uma igreja para ler Platão e discutir com seus amigos a metafísica de Malebranche. 
    

      Foram os anos decisivos de sua formação: ele poderia tê-los perdido, aguardando melhores dias para estudar. Mas nada, neste mundo, pode vencer a determinação do homem que é fiel à vocação espiritual. Não se intimidem, não desistam. Quanto mais pobres vocês ficarem, mais se dediquem aos estudos. A porcaria reinante não prevalecerá sobre a sinceridade dos seus esforços. Digo isto com a experiência de quem, ao longo de mais de duas décadas de pobreza, com mulher e filhos para sustentar, jamais deixou de estudar um único dia, aproveitando cada momento livre e abdicando de toda sorte de viagens e divertimentos. Nunca esperei que minha situação melhorasse para depois estudar, e garanto: seja teimoso, e um dia o mundo desiste de tentar dominar você pela fome.

- Olavo de Carvalho

segunda-feira, 10 de outubro de 2016

Paranóia Sociológica

      A  teoria da “violência simbólica” pressupunha ou uma megaconspiração cujos traços documentais desapareceram para sempre, ou o milagre de uma intenção inconsciente ser capaz de manipular o inconsciente alheio com a precisão de um cálculo matemático. Se as duas hipóteses são francamente dadaístas, à segunda vem acrescentar-se ainda mais um fator complicante. Para que os educadores fossem induzidos a trabalhar inconscientemente para os interesses da burguesia, teria sido preciso que a burguesia os manipulasse para esse fim, o que supõe que os capitalistas fossem educadores ainda mais hábeis do que os educadores profissionais, impondo a estes, por meio de “violência simbólica”, as normas e padrões de uma violência simbólica de segundo grau que, inconscientemente, eles deveriam repassar à multidão dos dominados. Também não há registro histórico de que isso jamais tivesse acontecido, é claro.

Ananda Coomaraswamy - O Sentido da Morte

O sentido da morte está inseparavelmente ligado ao sentido da vida. Nossa experiência animal é apenas de hoje, mas nossa razão toma contas também do amanhã; daí, na medida em que nossa vida é intelectual, e não meramente sensorial, nós estamos inevitavelmente interessados na questão, O que acontece "conosco" no amanhecer da morte. Essa é, evidentemente, uma pergunta que só pode responder em termos do que ou quem "nós" somos agora, mortal ou imortal: uma questão da validade que ligamos, por um lado, a nossa convicção de ser "este homem, tal e tal" e, do outro lado, a nossa convicção de ser incondicionalmente.

sexta-feira, 7 de outubro de 2016

Alguns FATOS importantes



·        Abril de 2001: o traficante Fernandinho-Beira Mar confessa que compra e injeta no mercado brasileiro, anualmente, duzentas toneladas de cocaína das Farc em troca de armas contrabandeadas do Líbano.

·        7 de dezembro de 2001: O Foro de São Paulo, coordenação do movimento comunista latino-americano, sob a presidência do sr. Luís Inácio Lula da Silva, lança um manifesto de apoio incondicional às Farc, no qual classifica como “terrorismo de Estado” as ações militares do governo colombiano contra essa organização.

·        17 de outubro de 2002: O PT, através do assessor para assuntos internacionais da campanha eleitoral de Lula, Giancarlo Summa, afirma em nota oficial que o partido nada tem a ver com as Farc e que o Foro de São Paulo é apenas “um foro de debates, e não uma estrutura de coordenação política internacional”.

·        1º. de março de 2003: O governo petista estende oficialmente seu manto de proteção sobre as Farc, recusando-se a classificá-las como organização terrorista conforme solicitava o presidente da Colômbia, Álvaro Uribe.

Acordo de Paz Com As FARC

             Juan Manuel Santos; no centro o Ditador Raúl Castro e ao lado dele, o narco-terrorista líder das FARC, Timochenko.

     Estranguladas pelo Exército, odiadas pelo povo colombiano, reduzidas a um décimo de seu contingente e, por fim, desmoralizadas pelo resgate espetacular de quinze reféns, as Farc estão seguindo o manual de instruções e fazendo exatamente o que a guerrilha brasileira fez em circunstâncias idênticas: partiram para o gerenciamento de danos e tentam desesperadamente transformar a derrota militar em vitória política.
     Se bem sucedida, essa operação terá sido, no fim das contas, o triunfo mais espetacular que a gangue poderia ter desejado. Todos os clássicos da guerra revolucionária explicam que guerrilhas não têm por alvo derrotar o adversário no campo de batalha, mas forçá-lo a aceitar exigências políticas. Esse é o único objetivo a que podem aspirar e a única razão de ser da sua existência – e, para isso, a derrota militar pode ser ainda melhor do que a vitória. O exemplo do Vietnã ainda está na memória de todos, mas não precisamos ir buscar tão longe: nosso governo atual não é outra coisa senão as guerrilhas dos anos 60-70 transfiguradas em poder político pelas boas graças da anistia.

BOCAGE - Terá fim, mas não sei quando

                       Sócrates, rei da razão,
                 Empunha a fatal sicuta,
                 E da morte, à extrema luta
                 Não lhe treme o coração:
                 Supportou-lhe a gradação
                 Com um ar sereno, e brando:
                 Dos discípulos ao bando
                 Disse: "Eu morro, e não me queixo;
                  E a memória, que vos deixo,
                  "Terá fim, mas não sei quando."


quinta-feira, 6 de outubro de 2016

Quem é filósofo e quem não é

     À medida que se espalha a consciência da debacle total das nossas universidades públicas e privadas, cresce o número de brasileiros que, valentemente, buscam estudar em casa e adquirir por esforço próprio aquilo que já compraram de um governo ladrão – ou de ladrões empresários de ensino – e jamais receberam.
     Quase dez anos atrás a Fundação Odebrecht – no mais, uma instituição admirável – me perguntou o que eu achava de uma campanha para cobrar do governo um ensino de melhor qualidade. Respondi que era inútil. De vigaristas nada se pede nem se exige. O melhor a fazer com o sistema de ensino era ignorá-lo. Se queriam prestar ao público um bom serviço, acrescentei, que tratassem de ajudar os autodidatas, aquela parcela heróica da nossa população que, de Machado de Assis a Mário Ferreira dos Santos, criou o melhor da nossa cultura superior. O meio de ajudá-los era colocar ao seu alcance os recursos essenciais para a auto-educação, que é, no fim das contas, a única educação que existe. Cheguei a conceber, para isso, uma coleção de livros e DVDs que davam, para cada domínio especializado do conhecimento, não só os elementos introdutórios indispensáveis, mas as fontes para o prosseguimento dos estudos até um nível que superava de muito o que qualquer universidade brasileira poderia não só oferecer, mas até mesmo imaginar.

     Minha sugestão foi gentilmente engavetada, e, com ou sem campanha de cobrança, o ensino nacional continuou declinando até tornar-se aquilo que é hoje: abuso intelectual de menores, exploração da boa-fé popular, crime organizado ou desorganizado.
     Na mesma medida, o número de cartas desesperadas que me chegam pedindo ajuda pedagógica multiplicou-se por dez, por cem e por mil, transcendendo minha capacidade de resposta, forçando-me a inventar coisas como o programa True Outspeak, o Seminário de Filosofia Online e outros projetos em andamento. E ainda não dou conta da demanda. As cartas continuam vindo, e o pedido que mais se repete é o de uma bibliografia filosófica essencial. É pedido impossível. O primeiro passo nessa ordem de estudos não é receber uma lista de livros, mas formá-la por iniciativa própria, na base de tentativa e erro, até que o estudante desenvolva uma espécie de instinto seletivo capaz de orientá-lo no labirinto das bibliotecas filosóficas. O que posso fazer, isto sim, é fornecer um critério básico para você aprender a discernir à primeira vista, entre os autores que falam em nome da filosofia, quais merecem atenção e quais seria melhor esquecer.

     Tive a sorte de adquirir esse critério pelo exemplo vivo do meu professor, Pe. Stanislavs Ladusãns. Quando ele atacava um novo problema filosófico – novo para os alunos, não para ele –, a primeira coisa que fazia era analisá-lo segundo os métodos e pontos de vista dos filósofos que tinham tratado do assunto, em ordem cronológica, incorporando o espírito de cada um e falando como se fosse um discípulo fiel, sem contestar ou criticar nada. Feito isso com duas dúzias de filósofos, as contradições e dificuldades apareciam por si mesmas, sem a menor intenção polêmica. Em seguida ele colocava em ordem essas dificuldades, analisando cada uma e por fim articulando, com os elementos mais sólidos fornecidos pelos vários pensadores estudados, a solução que lhe parecia a melhor.