A teoria da “violência simbólica” pressupunha ou
uma megaconspiração cujos traços documentais desapareceram para sempre, ou o
milagre de uma intenção inconsciente ser capaz de manipular o inconsciente
alheio com a precisão de um cálculo matemático. Se as duas hipóteses são
francamente dadaístas, à segunda vem acrescentar-se ainda mais um fator
complicante. Para que os educadores fossem induzidos a trabalhar
inconscientemente para os interesses da burguesia, teria sido preciso que a
burguesia os manipulasse para esse fim, o que supõe que os capitalistas fossem
educadores ainda mais hábeis do que os educadores profissionais, impondo a
estes, por meio de “violência simbólica”, as normas e padrões de uma violência
simbólica de segundo grau que, inconscientemente, eles deveriam repassar à
multidão dos dominados. Também não há registro histórico de que isso jamais
tivesse acontecido, é claro.
Ora, se a teoria da educação como
“violência simbólica” não corresponde a nenhum fato objetivo, a nada que tenha
acontecido historicamente, de onde é que ela extrai sua força de persuasão, a
aparência de verossimilhança que a torna aceita, de umas décadas para cá, como
uma grande verdade sociológica?
A
resposta é escandalosamente simples. Toda a documentação que não existe sobre o
planejamento da manipulação psicológica burguesa existe, em abundância, sobre a
manipulação educacional revolucionária e socialista. Milhares, centenas de
milhares de livros, artigos acadêmicos, atas de assembléias de professores e estudantes,
revistas educacionais, circulares de sindicatos, filmes, vídeos etc., sem
contar as obras completas de Antonio Gramsci e do próprio Pierre Bourdieu,
atestam a existência de enormes trabalhos empreendidos para implantar na cabeça
das crianças os valores e condutas que os revolucionários julgam convenientes
para transformar os estudantes em massa de militantes ou simpatizantes da causa
revolucionária, bem como para fazer com que os agentes desse empreendimento
passem despercebidos e os efeitos de suas ações sejam vivenciados como
transformações espontâneas do processo histórico. E isto não é uma
interpretação que eu esteja fazendo. Os próprios revolucionários declaram que
esse trabalho tem de ser feito e explicam como ele deve ser feito. A frase de Antônio
Gramsci citada no artigo anterior é o resumo da coisa toda. A “revolução
cultural” opera-se por meio de mudanças sutis e quase imperceptíveis do
imaginário popular – do “senso comum” como o chama Gramsci –, de tal modo que
tudo pareça espontâneo e que a vontade do Partido não se imponha como ditado
autoritário de uma organização política em particular, mas como decorrência
involuntária e anônima da natureza das coisas, como “autoridade onipresente e
invisível de um imperativo categórico, de um mandamento divino”.
Mais do que pôr em prática a máxima
leninista “acuse-os do que você faz, xingue-os do que você é”, Bourdieu inventa
seu inimigo à imagem e semelhança do que ele próprio está fazendo. A famosa
“violência simbólica” da cultura burguesa, não existe senão como projeção
invertida da educação revolucionária. Ela é, em toda a linha, uma criatura do
imaginário militante. É precisamente por só existir como fantasma na alma
doente dos revolucionários que a pedagogia burguesa não apenas deixa de
oferecer qualquer resistência visível ao avanço da educação revolucionária, mas
ainda a protege e fomenta, oferecendo ao educador antiburguês todos os meios de
ação disponíveis, acompanhados de honrarias e recompensas. Não há establishment educacional no mundo burguês
que não tenha em Pierre Bourdieu o seu queridinho, o seuenfant gâté,
infinitamente badalado e paparicado. Na verdade, a maioria dos educadores de
grande sucesso no mundo burguês são todos revolucionários – John Dewey,
Celestin Freinet, Paulo Freire, Jean Piaget, Emilia Ferrero e tutti quanti –, e é inconcebível que a
astúcia maquiavélica dos burgueses que montaram a operação de manipulação
invisível descrita por Pierre Bourdieu não tivesse percebido isso e, como uma
sonsa, consentisse em promover seus inimigos em vez de seus porta-vozes fiéis.
A “sociologia da educação” de Pierre
Bourdieu é não somente uma idiotice: é uma projeção psicótica das ações do
próprio Bourdieu e de seus correligionários sobre uma realidade inexistente. É
uma doença mental, e seu sucesso se deve precisamente a isso: é mais fácil
transmitir o vírus de uma moléstia incapacitante do que algum conhecimento da
realidade.
Nenhum comentário:
Postar um comentário