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sábado, 15 de junho de 2013

O Espírito Burguês,o Outsider e o Lobo da Estepe

   Carece ainda de elucidação o fenômeno individual do Lobo da Estepe, e principalmente suas relações singulares com a burguesia, de modo que tais sintomas devem ser perscrutados em sua fonte de origem. Tomemos como ponto de partida, já que se nos apresenta por si mesma, precisamente aquela sua relação com o "burguês"!
   O Lobo da Estepe vivia, segundo seu próprio entendimento, inteiramente à margem do mundo convencional, pois não conhecera nem a vida de família nem as ambições sociais. Sentia-se isolado ora como um esquisitão e doentio eremita, ora como um indivíduo superiormente dotado, que por seu gênio se sobressaía do comum dos mortais. Desprezava conscientemente a burguesia e vivia orgulhoso de não pertencer a ela. Contudo, sob muitos aspectos, vivia inteiramente como burguês, tinha dinheiro no banco, ajudava alguns parentes pobres, vestia-se sem cuidados particulares mas de maneira decente e sem chamar a atenção; procurava viver em paz com a polícia, os coletores de impostos e outros poderes semelhantes. Mas além disso sentia forte e secreta atração pela vida burguesa, pelas tranqüilas e decentes residências familiares com seus bem cuidados jardins, suas escadas reluzentes e sua modesta atmosfera de ordem e decoro. Agradava-lhe ter pequenos vícios e extravagâncias, sentir-se antiburguês, esquisitão ou gênio, mas nunca fixava residência onde não existisse nenhuma classe de burguesia. Não se encontrava à vontade em meio de pessoas violentas e atrabiliárias, nem entre delinqüentes e criminosos, mas antes procurava sempre viver em meio à classe média, com cujos hábitos, normas e atmosfera estava bem familiarizado, embora pudesse ter contra elas revolta e oposição. Além disso, fora educado em meio à pequena burguesia e dela conservara um grande número de idéias e noções. Teoricamente nada tinha em contrário à prostituição, mas na prática não seria capaz de levar uma prostituta a sério ou considerá-la realmente sua igual. Aos criminosos políticos, aos revolucionários ou aos sedutores espirituais, podia amá-los como se fossem seus irmãos, ou respeitar o estado e a sociedade, mas não saberia como tratar um ladrão, um criminoso ou sádico, a não ser demonstrando por eles uma compaixão eminentemente burguesa.

domingo, 9 de junho de 2013

A solidão

Convém jamais abandonar a solidão interior. Somente ela aproveita, pois que só ela nos põe em contato com Deus. A outra [solidão] é-lhe apenas imagem muita vez enganosa, fazendo-nos miserável, deixando-nos a olhar para nós mesmos.

No mundo, ninguém fará nada de relevante se não for capaz de juntar em si todas suas forças e encerrar-se na solidão interior – tal como um ovo isolado do exterior por casca impermeável, até ao momento em que, rompendo sua própria casca, dará à luz a uma vida livre e independente.

A vontade de solidão e a de poder semelham-se a dois contrários. Todavia, não há poder que não gere solidão. E a mesma solidão é tão-só desejo dum poder mais perfeito e recôndito.

A solidão é, a seu turno, a marca de nossa força e de nossa fraqueza – de nossa força, quando exerce em nós todas as potências da natureza humana, franqueando-nos a totalidade dos possíveis; de nossa fraqueza, quando nos encerra nos limites do eu particular, revelando-lhe as deficiências.

A solidão faz cada ser concentrar-se sobre as próprias virtualidades. Em se retirando do mundo, parece que carece de tudo. Mas, então, descobre o poder que possuímos de dar-nos tudo a nós – o que é a vida mesma do espírito. As virtualidades nada são se não consentimos pô-las à obra: e é na sociedade dos outros homens que se nos dá exercê-las.

O valor da solidão é o obrigar a pôr-nos em presença do que somos, i. é, do que nos constitui e deve ser distinto de todos acidentes de nossa vida. Não somos uma simples teia de relações: estas manifestam nossas potências, mas, amiúde, as embaraçam.

sábado, 8 de junho de 2013

A demolição das consciências

Boa parte do esforço moralizante despendido pela "direita religiosa" para sanear uma sociedade corrupta é inútil, já que termina sendo facilmente absorvida pela máquina da "dissonância cognitiva" e usada como instrumento de perdição geral.
Notem bem: moralidade não é uma lista de condutas louváveis e condenáveis, pronta para que o cidadão a obedeça com o automatismo de um rato de Pavlov.
Moralidade é consciência, é discernimento pessoal, é busca de uma meta de perfeição que só aos poucos vai se esclarecendo e encontrando seus meios de realização entre as contradições e ambigüidades da vida.
Sto. Tomás de Aquino já ensinava que o problema maior da existência moral não é conhecer a regra geral abstrata, mas fazer a ponte entre a unidade da regra e a variedade inesgotável das situações concretas, onde freqüentemente somos espremidos entre deveres contraditórios ou nos vemos perdidos na distância entre intenções, meios e resultados.
Lutero -- para não dizerem que puxo a brasa para a sardinha católica -- insistia em que "esta vida não é a devoção, mas a luta pela conquista da devoção".
E o santo Padre Pio de Pietrelcina: "É melhor afastar-se do mundo pouco a pouco, em vez de tudo de uma vez".