“Platão continua sendo o nosso melhor crítico de rock.”
“Os caminhos da poesia e da música não são alterados em qualquer
lugar sem uma mudança nas leis mais importantes da cidade.” Assim
escreveu Platão na República (4.42c). A música, para Platão, não era um
divertimento neutro. Poderia expressar e estimular a virtude – nobreza,
dignidade, temperança, castidade. Mas também poderia expressar e
estimular o vício – sensualidade, agressividade, indisciplina.
A preocupação de Platão não era muito diferente da de um homem
moderno preocupado com o caráter moral, e o efeito moral,
do Death Metal, digamos, ou do kitsch musical do gênero de Andrew Lloyd
Webber. “Os nossos filhos deviam estar ouvindo essas coisas?” é a
pergunta na mente dos adultos modernos, assim como “a cidade deveria
permitir isso?” era a questão na mente de Platão. Claro, há muito
tempo desistimos da ideia de proibir certos tipos de música através
de leis. No entanto, é ainda comum acreditar que a música tem – ou pode
ter – um caráter moral, e que o caráter de uma obra ou de um tipo de
música pode “contagiar” de alguma maneira seus devotos.
Nós não proibimos tipos de música através de leis, mas nós deveríamos
lembrar que nossas leis são feitas por pessoas que têm preferências
musicais; Platão pode estar certo, mesmo em relação a uma democracia
moderna, sobre as mudanças da cultura musical seguirem de mãos dadas com
as mudanças das leis, uma vez que as mudanças das leis refletem muitas
vezes as pressões da cultura. Não há dúvida de que a música
popular, hoje, goza de um status superior ao de qualquer outro produto
cultural. Pop stars são os primeiros entre as celebridades, são
idolatrados pelos jovens, tomados como modelos, cortejados por
políticos, e em geral dotados de uma aura mágica que lhes confere poder
sobre as multidões. É certamente possível, portanto, que algo de suas
mensagens vai refletir nas leis aprovadas pelos políticos que os
admiram. Se a mensagem é sensual, egocêntrica, e materialista (o que
geralmente é), então nós não devemos esperar que nossas leis se dirijam a
nós de um patamar superior ao conteúdo de tal mensagem.
Contudo, a nossa cultura é "sem julgamentos". Criticar a preferência
de outra pessoa, seja na música, entretenimento, ou estilo de vida, é
admitir que algumas preferências são superiores a outras. E isso, para
muitas pessoas, é ofensivo. Quem é você, respondem eles, que julga a
preferência dos outros? Os jovens, em particular, sentem isso, e uma vez
que são os jovens os principais devotos da música pop, isso coloca um
obstáculo formidável no caminho de quem se compromete a criticar o
pop numa universidade. Isso se dá especialmente desta maneira se a
crítica é formulada em linguagem platônica, como uma análise e
condenação dos vícios morais exemplificados por um tipo de música. Em
face disso, um professor pode ser tentado a desistir do problema do
julgamento, e aceitar que qualquer coisa serve, que todas as
preferências são igualmente válidas, e que, na medida em que a música é
um objeto de estudo acadêmico, não se trata de crítica, mas de análises
técnicas e conhecimentos práticos que devem ser transmitidos. De fato,
essa é a linha que parece ser seguida pelos departamentos acadêmicos de
musicologia, pelo menos no mundo anglófono.
A QUESTÃO DO CARÁTER MORAL da música é também complicada pelo fato de
que a música é apreciada de muitas maneiras diferentes: as pessoas
dançam músicas, elas trabalham e conversam ao som de músicas de fundo,
elas executam e ouvem músicas. As pessoas se empolgam para dançar uma
música que não suportariam ouvir – uma experiência bastante normal nos
dias de hoje. Você pode conversar ouvindo Mozart, mas
não ouvindo Shoenberg; você pode trabalhar ouvindo Chopin, mas não
ouvindo Wagner. E às vezes se argumenta que o contorno melódico e
rítmico da música pop serve não apenas para ser ouvido, mas também para
ser ouvido de maneira alta, e que estimula a
necessidade do pop
enquanto música de fundo. Alguns psicólogos se perguntam se essa
necessidade segue o padrão dos vícios; críticos mais filosóficos como
Theodor Adorno levantam questões de natureza profunda, como saber se o
ouvido humano não mudou inteiramente sob o impacto do jazz e de seus
sucessores musicais, e se a música pode ser para nós jamais o que foi
para Bach ou Mozart.
Adorno atacou o que ele chamou de “regressão da audição”, que ele
acreditava ter infectado toda a cultura da América moderna.
Ele considerou a cultura da audição como um recurso espiritual da
civilização ocidental. Para Adorno, o hábito de ouvir composições de
grande alcance, em que os
temas são subordinados a um amplo desenvolvimento melódico, harmônico e
rítmico, está ligado à capacidade de viver para além do momento, de
transcender a busca de uma gratificação imediata, para pôr de lado as
rotinas da sociedade consumista, com sua constante busca pelo “fetiche”,
e colocar os verdadeiros valores no lugar dos desejos fugazes. E há,
aqui, algo convincente que precisa ser resgatado da crítica imoderada, e
demasiado politizada, que Adorno faz a respeito de praticamente tudo
que ele encontrou nos Estados Unidos. Mas Adorno nos lembra de que é
muito difícil criticar um tipo de música sem colocar sob julgamento a
cultura a que ele pertence. Os estilos musicais não vêm em pacotes
fechados, sem relação com a vida humana em torno. E quando um
determinado tipo de música nos rodeia em espaços públicos, quando invade
cada café, bar e restaurante, quando seu estrondo nos atinge ao
trânsito dos carros e nos respinga das torneiras abertas dos rádios
e iPods em todo o planeta, o crítico pode ficar como o apócrifo
Rei Canuto diante de uma maré irrefreável, proferindo gritos inúteis de
indignação.
Nós deveríamos, então, desistir da música pop, considerando-a como
além da crítica, e a cultura expressa nela com um fato da vida? Esse
parece ser o ponto de vista entre os musicólogos. A música pop,
dizem-nos, existe para ser dançada, e aqueles que a julgam
com normas de salão de concertos, que é um lugar onde se escuta em
silêncio, perderam simplesmente a noção. A essência do pop não é a
forma, a estrutura, ou as relações musicais abstratas. Trata-se de
ritmo, e o ritmo é algo para você se mover, não para você ouvir.
Essa é certamente uma resposta justa para as formas mais truculentas
da crítica, mas levanta uma questão de profunda importância no estudo da
música, que é o da natureza do ritmo. Muitos dos tipos de pop de maior
sucesso hoje (Dj de música, por exemplo, ou produtos sintéticos como
“Alice Pratice”, de Crystal Castles) são gerados em computador. Em tais
músicas, você não ouve um ritmo, mas um tempo cortado por um fatiador
eletrônico. Ritmo não é a mesma coisa que mensuração. Não se
trata simplesmente de dividir o tempo em unidades repetíveis. E sim de
organizar o som no movimento, de modo que uma nota convida a próxima ao
seu espaço vago. Isso é exatamente o que se passa na dança – dança de
verdade, quero dizer. E as queixas que possam ser feitas contra a pior
forma de pop se aplicam às desastrosas tentativas de dança que
normalmente são produzidas por ela – esforços que não envolvem o
controle do corpo, nenhuma tentativa de dançar com outra pessoa, na
melhor das hipóteses apenas uma tentativa de dançar
para ele ou
para ela, fazendo movimentos que são cortados e atomizados como os sons que os provocam.
UM CONTRASTE SIMPLES É FORNECIDO pela dança escocesa eigthsome
reel. Nada poderia ser mais metricamente regular do que isso, mas há
certo sentido [ou, nexo] que pode ser ouvido na transição das seções,
como os gestos de mudança – às vezes as mãos estão no ar, às vezes ao
redor da cintura, às vezes as pernas se cruzam livremente, outras vezes
tendem a pisar com força. A melodia é ligeiramente variada de acordo
com cada mudança de parceiro e a animação aumenta com o encerramento da
linha melódica.
O ritmo no Heavy Metal, ou na música de DJ, é atirado
a você. A diferença entre
a e
com
é uma das mais profundas diferenças que conhecemos, e se manifesta em
todos os nossos encontros com outras pessoas – notadamente nas conversas
e nas interações sexuais. E este “estar junto" da dança escocesa
reflete o fato de que ela é uma dança social, em que as pessoas se
movimentam conscientemente umas com as outras. A necessidade humana por
esse tipo de dança ainda existe em nós, e explica a atual mania por
salsa, bem como o constante reaparecimento da dança de salão.
O Metal é atirado a seus devotos, e a perda de melodia da linha vocal
enfatiza isso. Não que a melodia esteja totalmente ausente, é claro;
ela é permitida ao solo de guitarra, que é frequentemente uma reflexão
pungente sobre sua própria solidão – o espírito de uma comunidade que
foi varrido desse mundo cruelmente envernizado. O mundo dessa música é
aquele em que as pessoas falam, gritam, dançam e sentem, sem fazer essas
coisas umas
com as outras. Você dança Heavy Metal balançando a
cabeça, batendo e empurrando as pessoas no meio da multidão. Tais
danças não estão realmente abertas a pessoas de todas as idades, mas
confinadas ao publico jovem e sexualmente disponível. Claro, não há nada
que impeça os velhos e engelhados de participar disso, mas vê-los nessa
situação é constrangedor, tanto mais quando eles mesmos parecem não o
saber.
Em outras palavras, o que parece ser ritmo, e o primeiro plano do
ritmo, é frequentemente a ausência de ritmo, um abafamento do ritmo pela
batida. O ritmo, divorciado da organização melódica, se torna inerte;
perde seu valor enquanto gesto e, consequentemente, perde a plasticidade
do gesto. As baladas mecânicas e as baladas sintetizadas em computador
são colapsadas em efeitos sonoros e deixam de expressar o sorriso humano
que se pode notar em toda verdadeira música de dança, desde as bandas
de tambores do Caribe até as valsas de Johann Strauss.
A melodia tem sido o princípio fundamental da canção popular
tradicional; ela torna possível memorizar a letra e cantar junto com a
canção. Toda a tradição folclórica contém um repertório de canções e
melodias construídas a partir de elementos repetíveis. O American
songbook [canções populares americanas mais célebres do século XX]
é similar, embora se utilize da nova linguagem melódica e harmônica que
surgiu do jazz, e muitas delas têm sofrido para se tornarem conhecidas
em todo o mundo. Por outro lado, existe muito pouco, no pop
contemporâneo emergente, que mostre, ou invenção melódica, ou mesmo
alguma consciência de por que a melodia importa – isto é, uma
consciência de seu sentido social e de sua capacidade de dar substancia
musical a uma canção de estrofes. Inúmeras canções pop nos dão apenas
variações de frases feitas, diatônicas e pentatonicas, unidas não por
algum poder intrínseco de junção, mas somente por meio de laboriosas
medições de fundo e por uma sequencia de acordes banal.
ISSO ME TRÁS DE VOLTA AO ATAQUE de Adorno à "regressão da audição".
Isso descreve com precisão a maneira pela qual o pop contemporâneo –
desde Crystal a Lady Gaga – é recebido por seus devotos. Eu não estou
falando das letras. Eu estou falando da experiência musical. É correto,
sem dúvida, falar de um novo tipo de audição, talvez um tipo de audição
que não é audição absolutamente, já que não há melodia de que se falar,
já que o ritmo é feito por maquinas, e o único convite à dança é apenas
um convite para se dançar consigo mesmo. E é fácil imaginar um tipo de
pop que não é assim: um pop que é
com o ouvinte e não
nele ou
a ele. Não há necessidade de se voltar a Elvis e Beatles para encontrar exemplos.
Confrontados com a cultura da juventude, somos induzidos a não fazer
julgamentos. Mas não fazer julgamentos já é fazer um tipo de julgamento:
isso sugere que realmente não importa o que você ouça ou dance, e que
não há distinção moral entre os vários hábitos de escuta. Essa é uma
posição moralmente carregada, e que é contrária ao senso comum. Sugerir
que pessoas que vivem com uma pulsação métrica como constante pano de
fundo de seus pensamentos e movimentos estao vivendo
da mesma maneira,
com o mesmo tipo de atenção e o mesmo padrão de desafios e recompensas
que aqueles que conhecem a música apenas para ouvi-la, limpando suas
mentes, entretanto, de todas as outras ideias – tal sugestão é
certamente implausível.
Do mesmo modo, sugerir que aqueles que dançam de maneira solipsista,
estimulados pela música Heavy Metal ou Indie, compartilham uma forma de
vida com aqueles que dançam, quando dançam, em formação disciplinada, é
dizer algo igualmente implausível. A diferença não está meramente no
tipo de movimentos que são realizados; é uma diferença que está no valor
social, e no valor relativo empregado ao estar
com o seu vizinho, em vez de
sobre ou
contra ele. A batida externalizada do pop é empurrada a nós. Você não pode facilmente se mover
com
isso, mas você pode se submeter a isso. Quando a música estruturada por
esta espécie de movimento externo é tocada numa dança, isso
automaticamente atomiza as pessoas na pista de dança. Eles podem dançar
uns com os outros, mas apenas penosamente uns com os outros. E a dança
não é algo que você faz, mas algo que lhe acontece – um movimento
ritmado no qual você está suspenso.
Quando você é controlado por um ritmo externo e mecanizado, sua
liberdade é subjugada, e é difícil então se mover de modo a sugerir uma
relação pessoal com o parceiro. A relação eu-tu na qual a sociedade
humana é construída não tem lugar na pista de dança da discoteca. Platão
estava sem dúvida correto, portanto, ao pensar que quando gastamos
nosso tempo com música nós estamos educando nosso caráter. Pois estamos
conhecendo um aspecto da nossa encarnação enquanto seres livres.
E ele estava certo ao concluir que aquela encarnação pode ter formas
virtuosas ou viciosas. Para dar apenas um exemplo, existe uma profunda
diferença, em matéria de conquistas amorosas, entre a modéstia e a
lascívia. A modéstia trata o outro como alguém com quem você está. A
lascívia é apontada para o outro, mas certamente não está com ele ou com
ela, já que é uma tentativa de impedir a liberdade do outro para
retirá-la. E é muito claro que esses traços de caráter são exibidos na
música e na dança. O pensamento de Platão era que se você mostra luxúria
nas danças que você mais gosta, então você está próximo de adquirir o
hábito. Há uma grande quantidade de músicas populares melodiosas, e uma
abundância de músicas populares com as quais alguém pode cantar junto e
dançar de maneira sociável. Tudo isso é óbvio. No entanto, há cada vez
mais, dentro do pop, outro tipo de prática em conjunto, em que o
movimento não está mais contido na linha musical, mas exportado a um
lugar fora dele, para um centro de pulsação que não exige que você o
ouça, e sim que você se submeta. Se você se submete, as características
morais da música desaparecem por trás da emoção; se você ouve, no
entanto, e ouve criticamente como eu tenho sugerido, você vai discernir
aquelas qualidades morais, que são tão vívidas quanto a nobreza na
Segunda Sinfonia de Elgar ou o horror em Erwartung de Schoenberg. E
assim você pode ser levado a concordar com Platão que se essa música for
permitida, então as leis que nos governam vão mudar.
Roger Scruton