O mundo físico, como tudo o mais, está submetido às leis divinas. Eu
também estou convicto disso, mas sei que a força das leis divinas não
se faz sentir sobre o universo físico pelas mesmas vias, nem do mesmo
modo pelo qual falamos de “leis naturais” ou “leis da física”. Estas
podem ser conhecidas por observação e indução. O acesso às leis divinas
exige um tipo especial de experiência irreprodutível em laboratório.
Que essa experiência existe e está documentada em todas as culturas, é
por sua vez um fato científico – em sentido literal – que só um
charlatão poderia negar. Tiveram-na Moisés e Ezequiel, os apóstolos no
Monte Tabor, Sta. Teresa de Ávila, S. João da Cruz e uma infinidade de
santos, místicos e profetas. Têm-na, hoje em dia, milhares de pessoas
comuns que passam pelo estado de morte clínica, sem atividade cardíaca
ou cerebral, voltam contando o que viram do céu e do inferno e atestam
a veracidade do seu relato acrescentando-lhe fatos da vida terrestre
que se passaram no mesmo instante longe dos seus corpos, e que não
poderiam ter observado pelos sentidos corporais nem mesmo se estivessem
vivas e saltitantes. Negar esses relatos ou contestar in limine o seu valor cognitivo é
um exagero histérico de dogmatismo ateísta que denota menos o ódio à
“fé religiosa” do que o ódio ao conhecimento.
No entanto, o que se pode e se deve negar é que o conteúdo cognitivo de tais
experiências possa ser compreendido nos termos unívocos da linguagem
científica moderna e valer, portanto, como expressão de “fatos
científicos” universalmente obrigantes como a existência de partículas
subatômicas. A experiência do mundo transcendente existe, mas o seu
sentido não é imediato nem unívoco como o dos fatos da ciência natural.
Sua relação com os dados do mundo físico é ambígua e problemática no
mais alto grau, como o atestam as controvérsias teológicas que se
arrastam há milênios sem solução unânime. Ora, tudo o que na Bíblia é
mandamento de Deus só chegou ao conhecimento humano por meio,
precisamente, de experiências desse tipo. Moisés no alto do Sinai, os
profetas menores antevendo catástrofes e milagres, os apóstolos
recebendo o Espírito Santo, o próprio Jesus falando ao Pai no Jardim
das Oliveiras não eram cientistas observando fatos do mundo físico.
Quando Paulo, por exemplo, fala do “uso natural da mulher”, há na
expressão “natural” todo um amálgama de tensões entre a natureza
primordial, padrão do destino integral e último que Deus reservou ao
homem, e a natureza decaída resultante do primeiro pecado, a natureza
como dado empírico. Não se trata de uma ambigüidade meramente
semântica, de uma imprecisão verbal do Apóstolo. Essa tensão existe
objetivamente na própria natureza, que é ao mesmo tempo um conjunto de
fatos acessíveis à observação comum – fatos que incluem toda sorte de
horrores e monstruosidades – e também, inseparavelmente, o símbolo
vivo, ainda que imperfeito, da natureza primordial. Paulo fala da
“natureza” desde o ponto de vista de alguém que tivera a experiência da
natureza primordial e, desse posto de observação, julgava
“antinaturais” certos fatos que, do ponto de vista terreno e imediato,
não eram senão dados da natureza, acessíveis aos sentidos e até banais.
Prova disso é a segunda ambigüidade, ou tensão dialética, que aparece
no uso que ele faz do tempo passado. Ele diz que alguns homens
“abandonaram” o uso natural da mulher. Quando abandonaram? Este ou aquele
indivíduo pode ter incorrido nesse pecado desde uma data x ou y, quando o costume já estava
disseminado na sociedade. Paulo refere-se decerto a esses casos, mas
suas palavras aludem também a algo de muito anterior, a uma origem
remota, imemorial, do mesmo vício. Revirem a frase o quanto quiserem,
verão sempre que esses dois sentidos aparecem, nela, fundidos e
inseparáveis. Paulo fala, com toda a evidência, desde um patamar
epistemológico em que fatos da natureza, vistos desde a escala maior da
natureza primordial, se tornam antinaturais. Ignorada a tensão, a
profundidade da sua mensagem se perde e é reduzida caricaturalmente a
uma falsa afirmação científica sobre fatos da natureza terrestre. E há
pessoas que, quando operam nas palavras do Apóstolo esse achatamento
semântico deformante, acreditam estar prestando serviço a Deus.
Olavo de Carvalho