Por toda parte, nas civilizações anteriores, um certo equilíbrio entre custo e benefício, entre direitos e deveres, entre prazeres e sacrifícios, era reconhecido como o princípio central da sanidade humana. A liberação de massas imensas de população para o desfrute de prazeres e requintes gratuitos é uma das situações psicológicas mais ameaçadoras já vividas pela humanidade desde o tempo das cavernas. Para cada indivíduo engolfado nesse processo, o efeito mais direto e incontornável da experiência é um sentimento de culpa tanto mais profundo e avassalador quanto menos conscientizado. Mas como poderia ele ser conscientizado, se na mesma medida em que se abrem as portas do prazer se fecham as da consciência religiosa?
Ortega y Gasset já dizia que os principais inimigos da cultura são os “señoritos satisfechos” que desfrutam do legado da civilização sem ter a menor idéia de como foi conquistado e, por ignorância das condições que o geraram, acabam por destruí-lo.O típico representante da moderna classe média, o “homem massa”, era realmente um filhinho-de-papai, um señorito satisfecho que se julgava herdeiro legítimo de todos os benefícios da civilização moderna para os quais não havia contribuído em absolutamente nada, pelos quais não tinha de pagar coisa nenhuma e dos quais, geralmente, ignorava tudo quanto aos sacrifícios que os produziram.O señorito satisfecho é corroído por um profundo ódio a si mesmo, mas está proibido, pela cultura vigente, de perceber a verdadeira natureza de suas culpas, e mais ainda de aliviá-las mediante a confissão religiosa e o cumprimento de deveres penitenciais. A culpa mal conscientizada, conforme a psicanálise demonstrou vezes sem conta, acaba sempre se exteriorizando como fantasia persecutória e acusatória projetada sobre os outros, sobre “o mundo” sobre “o sistema”.O homem medianamente instruído do nosso tempo joga suas culpas sobre “o sistema”, fingindo para si mesmo que está revoltado pelo que ele nega aos pobres, quando na realidade o odeia por aquilo que esse sistema lhe dá sem exigir nada em troca. Não que o sistema seja isento de culpas; mas a mesma prosperidade geral que espalha os benefícios da civilização entre massas crescentes que jamais poderiam sonhar com isso nos séculos anteriores mostra que essas culpas não são de ordem econômica, mas cultural: o capitalismo não cria miséria e sim riqueza; mas junto com ela espalha o laicismo e o permissivismo, rompendo o equilíbrio entre o prazer e o sacrifício, necessidade básica da psique humana. Daí o aparente paradoxo de que o ódio ao sistema se dissemine principalmente – ou exclusivamente – entre as classes que dele mais se beneficiam materialmente (lembre-se do que eu disse sobre o movimento gay no artigo da semana passada). A tentação socialista aparece aí como o canal mais fácil por onde as culpas do filhinho-de-papai são jogadas precisamente sobre as fontes do seu bem-estar e da sua liberdade. Vejam essa meninada da USP, gente de classe média e alta, depredando uma universidade gratuita, e compreenderão do que estou falando: o que esses garotos precisam não é de mais benefícios; é de uma cobrança moral que restaure a sua sanidade. Mas, como os representantes do Estado são eles próprios señoritos satisfechos que também não compreendem a origem das suas próprias culpas, sua tendência é fazer dos jovens enragés um símbolo da sua própria consciência moral faltante; daí que lhes cedam tudo, num arremedo de penitência, corrompendo-os e corrompendo-se cada vez mais e precipitando uma acumulação de culpas que só pode culminar na suprema culpa da sangueira revolucionária. “Vivemos num mundo demente, e sabemos perfeitamente disso”, dizia Jan Huizinga na década de 30, pouco antes que o desequilíbrio da alma européia desaguasse no morticínio geral. Transcorridas quase oito décadas, a humanidade ocidental nada aprendeu com a experiência e está pronta a repeti-la. Hipnotizada pela lógica do desejo, que não enxerga cura para os males senão na busca de mais satisfações e mais liberdade, como poderia ela descobrir que seu problema não é falta de bens ou prazeres, mas falta de deveres e sacrifícios que restaurem o sentido da vida e a integridade da alma?
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sexta-feira, 31 de maio de 2013
quinta-feira, 30 de maio de 2013
Tentação
TENTAÇÃO (peirasmos): Este termo se refere ao processo de um pensamento apaixonado ou uma sugestão diabólica, uma vez que aparece como um estímulo simples, a ser definido como o pensamento acompanhado por imagens - Fase em que um consentimento à tentação e tem sido dado - para o ponto onde o homem entra, por assim dizer, em diálogo com o pensamento (como Eva com a serpente), e assim a tentação atingiu o seu objetivo. O homem não pode deixar de se traduzir em ação seus pensamentos pecaminosos, no caso de um pensamento que encontra sua realização em uma ação, e, ainda, se é um pensamento que encontra o seu nível pecaminoso e mental consumação: para se envolver em "diálogo", o homem, podemos dizer que, para o habitual, como uma consumação já atuou. A mesma palavra grega significa, e com razão, que o termo que chamamos de "prova", que tendem a dar o valor de "sofrimento" apenas suportou, e que não oferece nenhuma ambigüidade de resultado, mas simplesmente foi enviada por Deus para o nosso progresso. Na verdade, não tão bem para os Padres. A doença, dor, dificuldades internas, as contradições da vida, são "tentação" real como homem colocou diante de uma escolha: a escolha de aceitar e viver de testes, com uma adesão de fé e submissão que produz os frutos mais felizes, ou murmuração e incredulidade, que podem levar à revolta e rejeição do próprio Deus.
segunda-feira, 27 de maio de 2013
Decisão
Pode haver algo na vida que tenha poder sobre nós que pouco a pouco nos cause esquecer tudo que era bom? E pode isto jamais acontecer para alguém que ouviu a chamada da eternidade bem clara e fortemente?
Se isto jamais pode ser, então deve-se buscar uma cura contra isto. Louvado seja Deus que tal cura exista — calmamente tomar uma decisão. Uma decisão nos junta ao eterno. Traz o que é eterno para dentro do tempo. Uma decisão nos eleva, com um choque, do torpor da monotonia. Uma decisão quebra o encantamento mágico do costume. Uma decisão quebra a longa fila de pensamentos cansativos. Uma decisão pronuncia sua bênção mesmo sobre o mais fraco início, enquanto é um início real. Decisão é o despertar do eterno.
Se poderia dizer que tudo isto é muito simples. É somente uma questão de momento, tomar uma decisão e tudo está bem. Ouse como um nadador corajoso mergulhar no mar, e ouse acreditar que o peso do nadador irá para a meta contra todas as correntes oponentes.
sexta-feira, 24 de maio de 2013
Música
“Platão continua sendo o nosso melhor crítico de rock.”
“Os caminhos da poesia e da música não são alterados em qualquer lugar sem uma mudança nas leis mais importantes da cidade.” Assim escreveu Platão na República (4.42c). A música, para Platão, não era um divertimento neutro. Poderia expressar e estimular a virtude – nobreza, dignidade, temperança, castidade. Mas também poderia expressar e estimular o vício – sensualidade, agressividade, indisciplina.
A preocupação de Platão não era muito diferente da de um homem moderno preocupado com o caráter moral, e o efeito moral, do Death Metal, digamos, ou do kitsch musical do gênero de Andrew Lloyd Webber. “Os nossos filhos deviam estar ouvindo essas coisas?” é a pergunta na mente dos adultos modernos, assim como “a cidade deveria permitir isso?” era a questão na mente de Platão. Claro, há muito tempo desistimos da ideia de proibir certos tipos de música através de leis. No entanto, é ainda comum acreditar que a música tem – ou pode ter – um caráter moral, e que o caráter de uma obra ou de um tipo de música pode “contagiar” de alguma maneira seus devotos.
Nós não proibimos tipos de música através de leis, mas nós deveríamos lembrar que nossas leis são feitas por pessoas que têm preferências musicais; Platão pode estar certo, mesmo em relação a uma democracia moderna, sobre as mudanças da cultura musical seguirem de mãos dadas com as mudanças das leis, uma vez que as mudanças das leis refletem muitas vezes as pressões da cultura. Não há dúvida de que a música popular, hoje, goza de um status superior ao de qualquer outro produto cultural. Pop stars são os primeiros entre as celebridades, são idolatrados pelos jovens, tomados como modelos, cortejados por políticos, e em geral dotados de uma aura mágica que lhes confere poder sobre as multidões. É certamente possível, portanto, que algo de suas mensagens vai refletir nas leis aprovadas pelos políticos que os admiram. Se a mensagem é sensual, egocêntrica, e materialista (o que geralmente é), então nós não devemos esperar que nossas leis se dirijam a nós de um patamar superior ao conteúdo de tal mensagem.
Contudo, a nossa cultura é "sem julgamentos". Criticar a preferência de outra pessoa, seja na música, entretenimento, ou estilo de vida, é admitir que algumas preferências são superiores a outras. E isso, para muitas pessoas, é ofensivo. Quem é você, respondem eles, que julga a preferência dos outros? Os jovens, em particular, sentem isso, e uma vez que são os jovens os principais devotos da música pop, isso coloca um obstáculo formidável no caminho de quem se compromete a criticar o pop numa universidade. Isso se dá especialmente desta maneira se a crítica é formulada em linguagem platônica, como uma análise e condenação dos vícios morais exemplificados por um tipo de música. Em face disso, um professor pode ser tentado a desistir do problema do julgamento, e aceitar que qualquer coisa serve, que todas as preferências são igualmente válidas, e que, na medida em que a música é um objeto de estudo acadêmico, não se trata de crítica, mas de análises técnicas e conhecimentos práticos que devem ser transmitidos. De fato, essa é a linha que parece ser seguida pelos departamentos acadêmicos de musicologia, pelo menos no mundo anglófono.
A QUESTÃO DO CARÁTER MORAL da música é também complicada pelo fato de que a música é apreciada de muitas maneiras diferentes: as pessoas dançam músicas, elas trabalham e conversam ao som de músicas de fundo, elas executam e ouvem músicas. As pessoas se empolgam para dançar uma música que não suportariam ouvir – uma experiência bastante normal nos dias de hoje. Você pode conversar ouvindo Mozart, mas não ouvindo Shoenberg; você pode trabalhar ouvindo Chopin, mas não ouvindo Wagner. E às vezes se argumenta que o contorno melódico e rítmico da música pop serve não apenas para ser ouvido, mas também para ser ouvido de maneira alta, e que estimula a necessidade do pop enquanto música de fundo. Alguns psicólogos se perguntam se essa necessidade segue o padrão dos vícios; críticos mais filosóficos como Theodor Adorno levantam questões de natureza profunda, como saber se o ouvido humano não mudou inteiramente sob o impacto do jazz e de seus sucessores musicais, e se a música pode ser para nós jamais o que foi para Bach ou Mozart.
Adorno atacou o que ele chamou de “regressão da audição”, que ele acreditava ter infectado toda a cultura da América moderna. Ele considerou a cultura da audição como um recurso espiritual da civilização ocidental. Para Adorno, o hábito de ouvir composições de grande alcance, em que os temas são subordinados a um amplo desenvolvimento melódico, harmônico e rítmico, está ligado à capacidade de viver para além do momento, de transcender a busca de uma gratificação imediata, para pôr de lado as rotinas da sociedade consumista, com sua constante busca pelo “fetiche”, e colocar os verdadeiros valores no lugar dos desejos fugazes. E há, aqui, algo convincente que precisa ser resgatado da crítica imoderada, e demasiado politizada, que Adorno faz a respeito de praticamente tudo que ele encontrou nos Estados Unidos. Mas Adorno nos lembra de que é muito difícil criticar um tipo de música sem colocar sob julgamento a cultura a que ele pertence. Os estilos musicais não vêm em pacotes fechados, sem relação com a vida humana em torno. E quando um determinado tipo de música nos rodeia em espaços públicos, quando invade cada café, bar e restaurante, quando seu estrondo nos atinge ao trânsito dos carros e nos respinga das torneiras abertas dos rádios e iPods em todo o planeta, o crítico pode ficar como o apócrifo Rei Canuto diante de uma maré irrefreável, proferindo gritos inúteis de indignação.
Nós deveríamos, então, desistir da música pop, considerando-a como além da crítica, e a cultura expressa nela com um fato da vida? Esse parece ser o ponto de vista entre os musicólogos. A música pop, dizem-nos, existe para ser dançada, e aqueles que a julgam com normas de salão de concertos, que é um lugar onde se escuta em silêncio, perderam simplesmente a noção. A essência do pop não é a forma, a estrutura, ou as relações musicais abstratas. Trata-se de ritmo, e o ritmo é algo para você se mover, não para você ouvir.
Essa é certamente uma resposta justa para as formas mais truculentas da crítica, mas levanta uma questão de profunda importância no estudo da música, que é o da natureza do ritmo. Muitos dos tipos de pop de maior sucesso hoje (Dj de música, por exemplo, ou produtos sintéticos como “Alice Pratice”, de Crystal Castles) são gerados em computador. Em tais músicas, você não ouve um ritmo, mas um tempo cortado por um fatiador eletrônico. Ritmo não é a mesma coisa que mensuração. Não se trata simplesmente de dividir o tempo em unidades repetíveis. E sim de organizar o som no movimento, de modo que uma nota convida a próxima ao seu espaço vago. Isso é exatamente o que se passa na dança – dança de verdade, quero dizer. E as queixas que possam ser feitas contra a pior forma de pop se aplicam às desastrosas tentativas de dança que normalmente são produzidas por ela – esforços que não envolvem o controle do corpo, nenhuma tentativa de dançar com outra pessoa, na melhor das hipóteses apenas uma tentativa de dançar para ele ou para ela, fazendo movimentos que são cortados e atomizados como os sons que os provocam.
UM CONTRASTE SIMPLES É FORNECIDO pela dança escocesa eigthsome reel. Nada poderia ser mais metricamente regular do que isso, mas há certo sentido [ou, nexo] que pode ser ouvido na transição das seções, como os gestos de mudança – às vezes as mãos estão no ar, às vezes ao redor da cintura, às vezes as pernas se cruzam livremente, outras vezes tendem a pisar com força. A melodia é ligeiramente variada de acordo com cada mudança de parceiro e a animação aumenta com o encerramento da linha melódica.
O ritmo no Heavy Metal, ou na música de DJ, é atirado a você. A diferença entre a e com é uma das mais profundas diferenças que conhecemos, e se manifesta em todos os nossos encontros com outras pessoas – notadamente nas conversas e nas interações sexuais. E este “estar junto" da dança escocesa reflete o fato de que ela é uma dança social, em que as pessoas se movimentam conscientemente umas com as outras. A necessidade humana por esse tipo de dança ainda existe em nós, e explica a atual mania por salsa, bem como o constante reaparecimento da dança de salão.
O Metal é atirado a seus devotos, e a perda de melodia da linha vocal enfatiza isso. Não que a melodia esteja totalmente ausente, é claro; ela é permitida ao solo de guitarra, que é frequentemente uma reflexão pungente sobre sua própria solidão – o espírito de uma comunidade que foi varrido desse mundo cruelmente envernizado. O mundo dessa música é aquele em que as pessoas falam, gritam, dançam e sentem, sem fazer essas coisas umas com as outras. Você dança Heavy Metal balançando a cabeça, batendo e empurrando as pessoas no meio da multidão. Tais danças não estão realmente abertas a pessoas de todas as idades, mas confinadas ao publico jovem e sexualmente disponível. Claro, não há nada que impeça os velhos e engelhados de participar disso, mas vê-los nessa situação é constrangedor, tanto mais quando eles mesmos parecem não o saber.
Em outras palavras, o que parece ser ritmo, e o primeiro plano do ritmo, é frequentemente a ausência de ritmo, um abafamento do ritmo pela batida. O ritmo, divorciado da organização melódica, se torna inerte; perde seu valor enquanto gesto e, consequentemente, perde a plasticidade do gesto. As baladas mecânicas e as baladas sintetizadas em computador são colapsadas em efeitos sonoros e deixam de expressar o sorriso humano que se pode notar em toda verdadeira música de dança, desde as bandas de tambores do Caribe até as valsas de Johann Strauss.
A melodia tem sido o princípio fundamental da canção popular tradicional; ela torna possível memorizar a letra e cantar junto com a canção. Toda a tradição folclórica contém um repertório de canções e melodias construídas a partir de elementos repetíveis. O American songbook [canções populares americanas mais célebres do século XX] é similar, embora se utilize da nova linguagem melódica e harmônica que surgiu do jazz, e muitas delas têm sofrido para se tornarem conhecidas em todo o mundo. Por outro lado, existe muito pouco, no pop contemporâneo emergente, que mostre, ou invenção melódica, ou mesmo alguma consciência de por que a melodia importa – isto é, uma consciência de seu sentido social e de sua capacidade de dar substancia musical a uma canção de estrofes. Inúmeras canções pop nos dão apenas variações de frases feitas, diatônicas e pentatonicas, unidas não por algum poder intrínseco de junção, mas somente por meio de laboriosas medições de fundo e por uma sequencia de acordes banal.
ISSO ME TRÁS DE VOLTA AO ATAQUE de Adorno à "regressão da audição". Isso descreve com precisão a maneira pela qual o pop contemporâneo – desde Crystal a Lady Gaga – é recebido por seus devotos. Eu não estou falando das letras. Eu estou falando da experiência musical. É correto, sem dúvida, falar de um novo tipo de audição, talvez um tipo de audição que não é audição absolutamente, já que não há melodia de que se falar, já que o ritmo é feito por maquinas, e o único convite à dança é apenas um convite para se dançar consigo mesmo. E é fácil imaginar um tipo de pop que não é assim: um pop que é com o ouvinte e não nele ou a ele. Não há necessidade de se voltar a Elvis e Beatles para encontrar exemplos.
Confrontados com a cultura da juventude, somos induzidos a não fazer julgamentos. Mas não fazer julgamentos já é fazer um tipo de julgamento: isso sugere que realmente não importa o que você ouça ou dance, e que não há distinção moral entre os vários hábitos de escuta. Essa é uma posição moralmente carregada, e que é contrária ao senso comum. Sugerir que pessoas que vivem com uma pulsação métrica como constante pano de fundo de seus pensamentos e movimentos estao vivendo da mesma maneira, com o mesmo tipo de atenção e o mesmo padrão de desafios e recompensas que aqueles que conhecem a música apenas para ouvi-la, limpando suas mentes, entretanto, de todas as outras ideias – tal sugestão é certamente implausível.
Do mesmo modo, sugerir que aqueles que dançam de maneira solipsista, estimulados pela música Heavy Metal ou Indie, compartilham uma forma de vida com aqueles que dançam, quando dançam, em formação disciplinada, é dizer algo igualmente implausível. A diferença não está meramente no tipo de movimentos que são realizados; é uma diferença que está no valor social, e no valor relativo empregado ao estar com o seu vizinho, em vez de sobre ou contra ele. A batida externalizada do pop é empurrada a nós. Você não pode facilmente se mover com isso, mas você pode se submeter a isso. Quando a música estruturada por esta espécie de movimento externo é tocada numa dança, isso automaticamente atomiza as pessoas na pista de dança. Eles podem dançar uns com os outros, mas apenas penosamente uns com os outros. E a dança não é algo que você faz, mas algo que lhe acontece – um movimento ritmado no qual você está suspenso.
Quando você é controlado por um ritmo externo e mecanizado, sua liberdade é subjugada, e é difícil então se mover de modo a sugerir uma relação pessoal com o parceiro. A relação eu-tu na qual a sociedade humana é construída não tem lugar na pista de dança da discoteca. Platão estava sem dúvida correto, portanto, ao pensar que quando gastamos nosso tempo com música nós estamos educando nosso caráter. Pois estamos conhecendo um aspecto da nossa encarnação enquanto seres livres.
E ele estava certo ao concluir que aquela encarnação pode ter formas virtuosas ou viciosas. Para dar apenas um exemplo, existe uma profunda diferença, em matéria de conquistas amorosas, entre a modéstia e a lascívia. A modéstia trata o outro como alguém com quem você está. A lascívia é apontada para o outro, mas certamente não está com ele ou com ela, já que é uma tentativa de impedir a liberdade do outro para retirá-la. E é muito claro que esses traços de caráter são exibidos na música e na dança. O pensamento de Platão era que se você mostra luxúria nas danças que você mais gosta, então você está próximo de adquirir o hábito. Há uma grande quantidade de músicas populares melodiosas, e uma abundância de músicas populares com as quais alguém pode cantar junto e dançar de maneira sociável. Tudo isso é óbvio. No entanto, há cada vez mais, dentro do pop, outro tipo de prática em conjunto, em que o movimento não está mais contido na linha musical, mas exportado a um lugar fora dele, para um centro de pulsação que não exige que você o ouça, e sim que você se submeta. Se você se submete, as características morais da música desaparecem por trás da emoção; se você ouve, no entanto, e ouve criticamente como eu tenho sugerido, você vai discernir aquelas qualidades morais, que são tão vívidas quanto a nobreza na Segunda Sinfonia de Elgar ou o horror em Erwartung de Schoenberg. E assim você pode ser levado a concordar com Platão que se essa música for permitida, então as leis que nos governam vão mudar.
Roger Scruton
quarta-feira, 22 de maio de 2013
O mundo físico, como tudo o mais, está submetido às leis divinas. Eu
também estou convicto disso, mas sei que a força das leis divinas não
se faz sentir sobre o universo físico pelas mesmas vias, nem do mesmo
modo pelo qual falamos de “leis naturais” ou “leis da física”. Estas
podem ser conhecidas por observação e indução. O acesso às leis divinas
exige um tipo especial de experiência irreprodutível em laboratório.
Que essa experiência existe e está documentada em todas as culturas, é
por sua vez um fato científico – em sentido literal – que só um
charlatão poderia negar. Tiveram-na Moisés e Ezequiel, os apóstolos no
Monte Tabor, Sta. Teresa de Ávila, S. João da Cruz e uma infinidade de
santos, místicos e profetas. Têm-na, hoje em dia, milhares de pessoas
comuns que passam pelo estado de morte clínica, sem atividade cardíaca
ou cerebral, voltam contando o que viram do céu e do inferno e atestam
a veracidade do seu relato acrescentando-lhe fatos da vida terrestre
que se passaram no mesmo instante longe dos seus corpos, e que não
poderiam ter observado pelos sentidos corporais nem mesmo se estivessem
vivas e saltitantes. Negar esses relatos ou contestar in limine o seu valor cognitivo é
um exagero histérico de dogmatismo ateísta que denota menos o ódio à
“fé religiosa” do que o ódio ao conhecimento.
No entanto, o que se pode e se deve negar é que o conteúdo cognitivo de tais experiências possa ser compreendido nos termos unívocos da linguagem científica moderna e valer, portanto, como expressão de “fatos científicos” universalmente obrigantes como a existência de partículas subatômicas. A experiência do mundo transcendente existe, mas o seu sentido não é imediato nem unívoco como o dos fatos da ciência natural. Sua relação com os dados do mundo físico é ambígua e problemática no mais alto grau, como o atestam as controvérsias teológicas que se arrastam há milênios sem solução unânime. Ora, tudo o que na Bíblia é mandamento de Deus só chegou ao conhecimento humano por meio, precisamente, de experiências desse tipo. Moisés no alto do Sinai, os profetas menores antevendo catástrofes e milagres, os apóstolos recebendo o Espírito Santo, o próprio Jesus falando ao Pai no Jardim das Oliveiras não eram cientistas observando fatos do mundo físico.
Quando Paulo, por exemplo, fala do “uso natural da mulher”, há na expressão “natural” todo um amálgama de tensões entre a natureza primordial, padrão do destino integral e último que Deus reservou ao homem, e a natureza decaída resultante do primeiro pecado, a natureza como dado empírico. Não se trata de uma ambigüidade meramente semântica, de uma imprecisão verbal do Apóstolo. Essa tensão existe objetivamente na própria natureza, que é ao mesmo tempo um conjunto de fatos acessíveis à observação comum – fatos que incluem toda sorte de horrores e monstruosidades – e também, inseparavelmente, o símbolo vivo, ainda que imperfeito, da natureza primordial. Paulo fala da “natureza” desde o ponto de vista de alguém que tivera a experiência da natureza primordial e, desse posto de observação, julgava “antinaturais” certos fatos que, do ponto de vista terreno e imediato, não eram senão dados da natureza, acessíveis aos sentidos e até banais.
Prova disso é a segunda ambigüidade, ou tensão dialética, que aparece no uso que ele faz do tempo passado. Ele diz que alguns homens “abandonaram” o uso natural da mulher. Quando abandonaram? Este ou aquele indivíduo pode ter incorrido nesse pecado desde uma data x ou y, quando o costume já estava disseminado na sociedade. Paulo refere-se decerto a esses casos, mas suas palavras aludem também a algo de muito anterior, a uma origem remota, imemorial, do mesmo vício. Revirem a frase o quanto quiserem, verão sempre que esses dois sentidos aparecem, nela, fundidos e inseparáveis. Paulo fala, com toda a evidência, desde um patamar epistemológico em que fatos da natureza, vistos desde a escala maior da natureza primordial, se tornam antinaturais. Ignorada a tensão, a profundidade da sua mensagem se perde e é reduzida caricaturalmente a uma falsa afirmação científica sobre fatos da natureza terrestre. E há pessoas que, quando operam nas palavras do Apóstolo esse achatamento semântico deformante, acreditam estar prestando serviço a Deus.
Olavo de Carvalho
No entanto, o que se pode e se deve negar é que o conteúdo cognitivo de tais experiências possa ser compreendido nos termos unívocos da linguagem científica moderna e valer, portanto, como expressão de “fatos científicos” universalmente obrigantes como a existência de partículas subatômicas. A experiência do mundo transcendente existe, mas o seu sentido não é imediato nem unívoco como o dos fatos da ciência natural. Sua relação com os dados do mundo físico é ambígua e problemática no mais alto grau, como o atestam as controvérsias teológicas que se arrastam há milênios sem solução unânime. Ora, tudo o que na Bíblia é mandamento de Deus só chegou ao conhecimento humano por meio, precisamente, de experiências desse tipo. Moisés no alto do Sinai, os profetas menores antevendo catástrofes e milagres, os apóstolos recebendo o Espírito Santo, o próprio Jesus falando ao Pai no Jardim das Oliveiras não eram cientistas observando fatos do mundo físico.
Quando Paulo, por exemplo, fala do “uso natural da mulher”, há na expressão “natural” todo um amálgama de tensões entre a natureza primordial, padrão do destino integral e último que Deus reservou ao homem, e a natureza decaída resultante do primeiro pecado, a natureza como dado empírico. Não se trata de uma ambigüidade meramente semântica, de uma imprecisão verbal do Apóstolo. Essa tensão existe objetivamente na própria natureza, que é ao mesmo tempo um conjunto de fatos acessíveis à observação comum – fatos que incluem toda sorte de horrores e monstruosidades – e também, inseparavelmente, o símbolo vivo, ainda que imperfeito, da natureza primordial. Paulo fala da “natureza” desde o ponto de vista de alguém que tivera a experiência da natureza primordial e, desse posto de observação, julgava “antinaturais” certos fatos que, do ponto de vista terreno e imediato, não eram senão dados da natureza, acessíveis aos sentidos e até banais.
Prova disso é a segunda ambigüidade, ou tensão dialética, que aparece no uso que ele faz do tempo passado. Ele diz que alguns homens “abandonaram” o uso natural da mulher. Quando abandonaram? Este ou aquele indivíduo pode ter incorrido nesse pecado desde uma data x ou y, quando o costume já estava disseminado na sociedade. Paulo refere-se decerto a esses casos, mas suas palavras aludem também a algo de muito anterior, a uma origem remota, imemorial, do mesmo vício. Revirem a frase o quanto quiserem, verão sempre que esses dois sentidos aparecem, nela, fundidos e inseparáveis. Paulo fala, com toda a evidência, desde um patamar epistemológico em que fatos da natureza, vistos desde a escala maior da natureza primordial, se tornam antinaturais. Ignorada a tensão, a profundidade da sua mensagem se perde e é reduzida caricaturalmente a uma falsa afirmação científica sobre fatos da natureza terrestre. E há pessoas que, quando operam nas palavras do Apóstolo esse achatamento semântico deformante, acreditam estar prestando serviço a Deus.
Olavo de Carvalho
segunda-feira, 13 de maio de 2013
Contemplação
Deus não reserva essa elevada vocação (a da contemplação
mística) apenas a certas almas; ao contrário, Ele permite que todas as
almas a abracem. Mas Ele encontra poucos que lhe permitem fazer essas
coisas sublimes para eles. Há muitos que, quando Ele os submete a
provas, desviam-se da obra e recusam-se a suportar a aridez e a
mortificação, em vez de submeterem-se, como deviam, com perfeita paciência
São João da Cruz
Três coisas previnem ouvirmos a Palavra eterna. Primeiro é o corpo, segundo é o número e terceiro é o tempo. Se nos livrarmos destas três coisas devemos estar vivendo na eternidade e no espírito, solitários no deserto ouvindo a Palavra eterna... O ouvinte e o ouvido são um só na Palavra eterna.
Mestre Eckhart
São João da Cruz
Três coisas previnem ouvirmos a Palavra eterna. Primeiro é o corpo, segundo é o número e terceiro é o tempo. Se nos livrarmos destas três coisas devemos estar vivendo na eternidade e no espírito, solitários no deserto ouvindo a Palavra eterna... O ouvinte e o ouvido são um só na Palavra eterna.
Mestre Eckhart
O Demônio da Distração
A distração crônica – uma das maiores ameaças de nosso tempo – pode ser caracterizada como uma condição passiva na qual um homem habitualmente se alimenta de estímulos externos, como se eles por si só pudessem constituir um fim suficiente para a existência humana. É um estado que viola um princípio fundamental: a obrigação de limitar e assimilar seu próprio “alimento mental” através do exercício de um poder determinado – o mesmo poder, de fato, que nos torna humanos.
O mais assombroso não é que essa condição de gula e indigestão mental não seja salutar, mas que possa ser tolerada frequentemente com tão grande facilidade. A explicação para esse desconforto aparente reside no fato de que a distração, depois de certo tempo, leva a uma dissipação das energias mentais e a uma redução correspondente dos níveis de concentração, de tal forma que o processo em si mesmo cria a insensibilidade necessária. As percepções sutis, esses vislumbres de reinos transcendentes aos limites estreitos do universo convencional, são a primeira coisa a desaparecer. Longe de ser um mero empobrecimento, esse evento não anunciado significa a perda de nossa inteligência mais elevada, de nossa liberdade real e, em certo sentido, de nossa humanidade.
quarta-feira, 8 de maio de 2013
Arrependimento
Deus "não é homem, para que se arrependa" (I
Samuel 15:29, cf. Salmo 110:4, e Ezequiel 24:4). Metanoia é uma "mudança
de mente", que difere apenas na sua mudança mais ampla implicação mente
que aconteceu quando nos arrependemos de intenções. Quando fazemos isso, é
porque nós mesmos sentimos que estamos agora "mais prudente" e que
somos capazes de agir como "aconsejadamente", ou expresso como
Platão, logon kata. O conselho que estamos recebendo? Quem dá conselhos quando
"recebem conselhos nós mesmos"? Sobre este ponto Sócrates não tinha
nenhuma dúvida, então, como ele diz, "Quando eu estava prestes a
atravessar o córrego, me foi dado o sinal demoníaco que, geralmente, vem a mim
* Ele sempre me impede que eu quero fazer - e eu pensei que era uma voz dele me
proibiu ... "(Fedro 242B). Ou, como Platão também diz, "há algo na
alma que inclina os homens a beber e proíbe algo, algo diferente do que dobra
', onde o que está nos arrastando paixões e distúrbios, e o que nos mantém Voz
da Razão (República 439). Todo mundo já teve essa experiência.
Homens Exemplo
"Reconhecer isto, significa reconhecer também que o primeiro problema, base de qualquer outro, é de índole interna: reerguer-se, ressurgir interiormente, tomar forma, criar em nós mesmos ordem e aprumo. Quem se ilude acerca da possibilidade de uma luta puramente política e sobre o poder de uma ou outra forma ou sistema que não tenha contrapartida precisa numa nova qualidade humana, nada aprendeu das lições do recente passado. (...) Devemos tomar uma posição firme contra aquele falso “realismo político” que pensa apenas em termos de programas, de problemas de organização partidária, de receitas sociais e económicas. Tudo isso pertence ao contingente, não ao essencial. A medida do que pode ser ainda salvo depende da existência ou inexistência de homens que se apresentem, não a pregar fórmulas, mas como exemplos, não pactuando com a demagogia e com o materialismo das massas, mas despertando formas diversas de sensibilidade e de interesses."
Julius Evola
Acerca da Fidelidade
Pode
não se achar particularmente interessante voltar a evocar alguns ideais éticos
que tiveram uma particular força e prestígio nas civilizações anteriores das
nossas raças e que foram um factor da sua grandeza, embora, por outro lado, se
encontrem praticamente desvanecidos no esterco do mundo actual. Um de tais
casos é o relativo à fides.
Em latim o sentido do termo não é a “fé”, mas sim sobretudo a fidelidade: a um compromisso, a um juramento, a um pacto, à palavra dada, a um vínculo livremente aceite. Para além do mundo meramente humano, a fides transforma-se em “fé”, estende-se às relações com potências superiores, e então ela funda a religio, termo que na sua origem significava “vinculação”: vinculação entre o indivíduo e o divino. O pressuposto existencial da fides no primeiro sentido e, simultaneamente, aquilo do qual a mesma é sua manifestação, é a virtus, não na sua acepção moralista ou inclusive sexual, mas no sentido de uma firmeza interior, de uma rectidão.
Em latim o sentido do termo não é a “fé”, mas sim sobretudo a fidelidade: a um compromisso, a um juramento, a um pacto, à palavra dada, a um vínculo livremente aceite. Para além do mundo meramente humano, a fides transforma-se em “fé”, estende-se às relações com potências superiores, e então ela funda a religio, termo que na sua origem significava “vinculação”: vinculação entre o indivíduo e o divino. O pressuposto existencial da fides no primeiro sentido e, simultaneamente, aquilo do qual a mesma é sua manifestação, é a virtus, não na sua acepção moralista ou inclusive sexual, mas no sentido de uma firmeza interior, de uma rectidão.
domingo, 5 de maio de 2013
Destruição da Educação
A partir dos anos 80, foi introduzindo o sistema de alfabetização
“socioconstrutivista”, concebido por pedagogos esquerdistas como Emilia
Ferrero, Lev Vigotsky e Paulo Freire para implantar na mente infantil as
estruturas cognitivas aptas a preparar o desenvolvimento mais ou menos
espontâneo de uma cosmovisão socialista, praticamente sem necessidade de
“doutrinação” explícita.
Do ponto de vista do aprendizado, do rendimento escolar dos alunos, e sobretudo da alfabetização, os resultados foram catastróficos.
Não há espaço aqui para explicar a coisa toda, mas, em resumidas contas, é o seguinte. Todo idioma compõe-se de uma parte mais ou menos fechada, estável e mecânica – o alfabeto, a ortografia, a lista de fonemas e suas combinações, as regras básicas da morfologia e da sintaxe -- e de uma parte aberta, movente e fluida: o universo inteiro dos significados, dos valores, das nuances e das intenções de discurso. A primeira aprende-se eminentemente por memorização e exercícios repetitivos. A segunda, pelo auto-enriquecimento intelectual permanente, pelo acesso aos bens de alta cultura, pelo uso da inteligência comparativa, crítica e analítica e, last not least, pelo exercício das habilidades pessoais de comunicação e expressão. Sem o domínio adequado da primeira parte, é impossível orientar-se na segunda. Seria como saltar e dançar antes de ter aprendido a andar. É exatamente essa inversão que o socioconstrutivismo impõe aos alunos, pretendendo que participem ativamente – e até criativamente – do “universo da cultura” antes de ter os instrumentos de base necessários à articulação verbal de seus pensamentos, percepções e estados interiores.
O socioconstrutivismo mistura a alfabetização com a aquisição de conteúdos, com a socialização e até com o exercício da reflexão crítica, tornando o processo enormemente complicado e, no caminho, negligenciando a aquisição das habilidades fonético-silábicas elementares sem as quais ninguém pode chegar a um domínio suficiente da linguagem.
O produto dessa monstruosidade pedagógica são estudantes que chegam ao mestrado e ao doutorado sem conhecimentos mínimos de ortografia e com uma reduzida capacidade de articular experiência e linguagem. Na universidade aprendem a macaquear o jargão de uma ou várias especialidades acadêmicas que, na falta de um domínio razoável da língua geral e literária, compreendem de maneira coisificada, quase fetichista, permanecendo quase sempre insensíveis às nuances de sentido e incapazes de apreender, na prática, a diferença entre um conceito e uma figura de linguagem. Em geral não têm sequer o senso da “forma”, seja no que lêem, seja no que escrevem.
Aplicado em escala nacional, o socioconstrutivismo resultou numa espetacular democratização da inépcia, que hoje se distribui mais ou menos equitativamente entre todos os jovens brasileiros estudantes ou diplomados, sem distinções de credo ou de ideologia.
Olavo de Carvalho
Do ponto de vista do aprendizado, do rendimento escolar dos alunos, e sobretudo da alfabetização, os resultados foram catastróficos.
Não há espaço aqui para explicar a coisa toda, mas, em resumidas contas, é o seguinte. Todo idioma compõe-se de uma parte mais ou menos fechada, estável e mecânica – o alfabeto, a ortografia, a lista de fonemas e suas combinações, as regras básicas da morfologia e da sintaxe -- e de uma parte aberta, movente e fluida: o universo inteiro dos significados, dos valores, das nuances e das intenções de discurso. A primeira aprende-se eminentemente por memorização e exercícios repetitivos. A segunda, pelo auto-enriquecimento intelectual permanente, pelo acesso aos bens de alta cultura, pelo uso da inteligência comparativa, crítica e analítica e, last not least, pelo exercício das habilidades pessoais de comunicação e expressão. Sem o domínio adequado da primeira parte, é impossível orientar-se na segunda. Seria como saltar e dançar antes de ter aprendido a andar. É exatamente essa inversão que o socioconstrutivismo impõe aos alunos, pretendendo que participem ativamente – e até criativamente – do “universo da cultura” antes de ter os instrumentos de base necessários à articulação verbal de seus pensamentos, percepções e estados interiores.
O socioconstrutivismo mistura a alfabetização com a aquisição de conteúdos, com a socialização e até com o exercício da reflexão crítica, tornando o processo enormemente complicado e, no caminho, negligenciando a aquisição das habilidades fonético-silábicas elementares sem as quais ninguém pode chegar a um domínio suficiente da linguagem.
O produto dessa monstruosidade pedagógica são estudantes que chegam ao mestrado e ao doutorado sem conhecimentos mínimos de ortografia e com uma reduzida capacidade de articular experiência e linguagem. Na universidade aprendem a macaquear o jargão de uma ou várias especialidades acadêmicas que, na falta de um domínio razoável da língua geral e literária, compreendem de maneira coisificada, quase fetichista, permanecendo quase sempre insensíveis às nuances de sentido e incapazes de apreender, na prática, a diferença entre um conceito e uma figura de linguagem. Em geral não têm sequer o senso da “forma”, seja no que lêem, seja no que escrevem.
Aplicado em escala nacional, o socioconstrutivismo resultou numa espetacular democratização da inépcia, que hoje se distribui mais ou menos equitativamente entre todos os jovens brasileiros estudantes ou diplomados, sem distinções de credo ou de ideologia.
Olavo de Carvalho
Despertar interior
Por vezes, do fundo obscuro da alma humana, soterrada
de paixões e terrores, nasce um impulso de libertar-se da densa confusão
dos tempos e erguer-se até um ponto onde seja possível enxergar, por cima
do caos e das tormentas, dos prazeres e das dores, um pouco da harmonia
cósmica ou mesmo, para além dela, um fragmento de luz da secreta ordem
trancendente que — talvez — governa todas as coisas.
É o impulso mais alto e mais nobre da alma humana. É dele que nascem todas as descobertas da sabedoria e das ciências, a possibilidade mesma da vida organizada em sociedade, a ordem, as leis, a religião, a moralidade, e mesmo, por refração, as criações da arte e da técnica que tornam a existência terrestre menos sofrida.
É o impulso mais alto e mais nobre da alma humana. É dele que nascem todas as descobertas da sabedoria e das ciências, a possibilidade mesma da vida organizada em sociedade, a ordem, as leis, a religião, a moralidade, e mesmo, por refração, as criações da arte e da técnica que tornam a existência terrestre menos sofrida.
Significado de "Ascese"
O termo ascese - do grego askeo, se exercitar - só conheceu originariamente o sentido de "exercício", e em certa medida, romanamente, aquele de "disciplina". O termo indo-ariano correspondente é tapas (em pali: tapa ou tapo) e possui significado análogo; com a única diferença que em razão da raiz tap - que quer dizer "ter calor, ardor" - compreende também a idéia de uma concentração intensa, de um ardor, quase de um fôgo.
No curso do desenvolvimento da civilização ocidental, o termo "ascese" recebeu no entanto, como se sabe, uma significação particular, que diverge do sentido original. Não apenas a palavra tomou um sentido unilateralmente religioso, mas, devido a intonação geral da fé, que veio a predominar entre os povos ocidentais, a ascese se ligou a idéias de mortificação da carne e a dolorosa renúncia do mundo; dito de outra forma, o termo acabou por indicar a via que a dita fé estimou a mais adaptada para a "salvação" e para a reconciliação da criatura, marcada pelo pecado original, com o seu Criador.
Julius Evola
No curso do desenvolvimento da civilização ocidental, o termo "ascese" recebeu no entanto, como se sabe, uma significação particular, que diverge do sentido original. Não apenas a palavra tomou um sentido unilateralmente religioso, mas, devido a intonação geral da fé, que veio a predominar entre os povos ocidentais, a ascese se ligou a idéias de mortificação da carne e a dolorosa renúncia do mundo; dito de outra forma, o termo acabou por indicar a via que a dita fé estimou a mais adaptada para a "salvação" e para a reconciliação da criatura, marcada pelo pecado original, com o seu Criador.
Julius Evola
O problema ético
O que
caracteriza a ética culta e civilizada é a sua fundamentação na
prudência como hábito reiterado do saber (virtude é um hábito reiterado e
bom), do conhecimento dos princípios, meios e fins, e inclui,
subordinadamente, a sabedoria, a ciência, a filosofia, etc. Funda-se na
moderação, no manter-se equilibradamente entre os excessos contrários,
pois o vício, como hábito continuado do que é mau, pode surgir, também,
de uma virtude tomada em excesso.
A moderação é a temperança nas paixões, o evitar-se os excessos, o saber manter-se no meio termo justo e bom. Por isso a moderação exige também a justiça, o reconhecimento do que é devido à natureza das coisas, o respeito aos seus direitos, a ausência da lesão ao direito alheio, o saber dar a cada um o que lhe cabe, com moderação. E exige ainda coragem, ânimo forte, a capacidade para saber arrostar os riscos, que a prática do bem pode exigir, sem cair nos excessos da temeridade e da audácia.
Vê-se, assim, que a prudência precisa dos freios da moderação, da iluminação, da justiça e da força, da coragem, como a moderação necessita o auxílio da prudência, os limites da justiça, a coragem que faz vencer os ímpetos exagerados, e a coragem o conhecimento da prudência, os freios da moderação, a visão clara da justiça.
Todas essas virtudes cooperam entre si para darem os melhores resultados. Soltas, são incompletas; cooperando, são poderosas. O homem verdadeiramente culto sabe dosar seus atos. O bárbaro, não. Este se deixa arrastar pelos excessos da coragem que o levam à temeridade, à audácia; aos excessos da prudência, que o tornam astucioso, manhoso; aos desvios da justiça, que o tornam cruel, inclemente; aos desvios da moderação, que o levam à ira, à cólera, à destruição.
Que nos mostra o espetáculo de hoje? Não há exemplos viciosos que se repetem e se multiplicam? Bárbaros intra muros… É mister apontá-los, e apontá-los até dentro de nós, porque em nossos momentos de fraqueza e de desfalecimento somos bárbaros também. Que cada um faça seu exame de consciência, e compreenda que não há nessas atitudes nenhuma grandeza, pois a temeridade e a audácia bárbaras não são manifestações de força, mas apenas de fraqueza na capacidade inibidora; revelam apenas que aquele que os sofre é um fraco em sua vontade e em sua inteligência.
Por isso é presa fácil de suas paixões e de sua concupiscência. Só os fortes, só os corajosos são moderados e prudentes, porque tais virtudes exigem mais inteligência e vontade do que deixar desencadear as forças primitivas.
Dizia Nietzsche, e nisto ele era bem cristão, que o homem de real valor não é aquele que levanta o gládio e desfecha o golpe, mas aquele que, sendo capaz de levantar o gládio, não fere, e perdoa.
A ética do bárbaro é a ética do dente por dente, do olho por olho. É a ética da vingança, é a norma do que deseja apenas o castigo, do sádico que só se satisfaz ao ver o adversário morder o pó da derrota. Não é o que vence e dá a mão para levantar o vencido. Não é o que busca a solução que o tornará amigo de seus semelhantes. Não é o que ama, mas o que odeia.
O bárbaro ameaça a nossa ética. Invade todos os caminhos, penetra nos lares, nas escolas. Quer estabelecer a sua grandeza, na sua miséria, proclama a sua força onde esta não está, aponta a sua exaltação, quando ela é depressão, e quando julga olhar a sua altura apenas está vendo o vale, em cujos pântanos ele perdura. Sues vôos são apenas saltos de sapos, ou arrancos de fera, nunca o vôo das aves que invadem o azul do céu, e que são símbolos da grandeza e da inteligência humana.
Mário Ferreira dos Santos
A moderação é a temperança nas paixões, o evitar-se os excessos, o saber manter-se no meio termo justo e bom. Por isso a moderação exige também a justiça, o reconhecimento do que é devido à natureza das coisas, o respeito aos seus direitos, a ausência da lesão ao direito alheio, o saber dar a cada um o que lhe cabe, com moderação. E exige ainda coragem, ânimo forte, a capacidade para saber arrostar os riscos, que a prática do bem pode exigir, sem cair nos excessos da temeridade e da audácia.
Vê-se, assim, que a prudência precisa dos freios da moderação, da iluminação, da justiça e da força, da coragem, como a moderação necessita o auxílio da prudência, os limites da justiça, a coragem que faz vencer os ímpetos exagerados, e a coragem o conhecimento da prudência, os freios da moderação, a visão clara da justiça.
Todas essas virtudes cooperam entre si para darem os melhores resultados. Soltas, são incompletas; cooperando, são poderosas. O homem verdadeiramente culto sabe dosar seus atos. O bárbaro, não. Este se deixa arrastar pelos excessos da coragem que o levam à temeridade, à audácia; aos excessos da prudência, que o tornam astucioso, manhoso; aos desvios da justiça, que o tornam cruel, inclemente; aos desvios da moderação, que o levam à ira, à cólera, à destruição.
Que nos mostra o espetáculo de hoje? Não há exemplos viciosos que se repetem e se multiplicam? Bárbaros intra muros… É mister apontá-los, e apontá-los até dentro de nós, porque em nossos momentos de fraqueza e de desfalecimento somos bárbaros também. Que cada um faça seu exame de consciência, e compreenda que não há nessas atitudes nenhuma grandeza, pois a temeridade e a audácia bárbaras não são manifestações de força, mas apenas de fraqueza na capacidade inibidora; revelam apenas que aquele que os sofre é um fraco em sua vontade e em sua inteligência.
Por isso é presa fácil de suas paixões e de sua concupiscência. Só os fortes, só os corajosos são moderados e prudentes, porque tais virtudes exigem mais inteligência e vontade do que deixar desencadear as forças primitivas.
Dizia Nietzsche, e nisto ele era bem cristão, que o homem de real valor não é aquele que levanta o gládio e desfecha o golpe, mas aquele que, sendo capaz de levantar o gládio, não fere, e perdoa.
A ética do bárbaro é a ética do dente por dente, do olho por olho. É a ética da vingança, é a norma do que deseja apenas o castigo, do sádico que só se satisfaz ao ver o adversário morder o pó da derrota. Não é o que vence e dá a mão para levantar o vencido. Não é o que busca a solução que o tornará amigo de seus semelhantes. Não é o que ama, mas o que odeia.
O bárbaro ameaça a nossa ética. Invade todos os caminhos, penetra nos lares, nas escolas. Quer estabelecer a sua grandeza, na sua miséria, proclama a sua força onde esta não está, aponta a sua exaltação, quando ela é depressão, e quando julga olhar a sua altura apenas está vendo o vale, em cujos pântanos ele perdura. Sues vôos são apenas saltos de sapos, ou arrancos de fera, nunca o vôo das aves que invadem o azul do céu, e que são símbolos da grandeza e da inteligência humana.
Mário Ferreira dos Santos
Anseio
A vida de todos os seres, sem exceção, é regida por uma Força primordial, muito profunda neles. A natureza desta força é anseio: um apetite que nunca é satisfeito, uma agitação sem fim, uma necessidade irresistível, e uma cega sofreguidão selvagem.
A essência desta natureza cósmica primordial é: tornar-se; transformar-se caótica e desordenadamente; fluxo incoercível; geração-destruição; atração-repulsão; terror-desejo; formação-dissolução. Todos estes elementos são combinados em uma mistura incandescente que não conhece repouso.
O sábio fala dela como um espanto e como um terror. A denomina: Fogo vivo e universal; hyle (matéria), Dragão Verde, Quintessência, Primeira Substância, Grande Agente Mágico. O princípio da obra universal é também o princípio de sua «Grande Obra», posto que o Magistério da Criação e o Magistério com o qual o homem realiza a si mesmo de acordo com a Arte real são um e o mesmo.
Esta Matéria nossa não é nem uma abstração da filosofia profana nem um mito ou conto de fadas, mas uma realidade viva e poderosa, o espírito e a vitalidade da Terra e da Vida.
A raça humana não a conhece. Um lei natural providencial a mantém oculta de sua consciência através do espetáculo ilusório dos fenômenos materiais, da realidade sólida, sem a qual não haveria descanso ou paz em sua vida. De acordo com a mesma lei providencial, este véu de ignorância é removido e o olho do Conhecimento é aberto só até certo ponto de crescimento e na presença de uma fortaleza capaz de suportar a visão.
Saiba então que a Vida de tua vida está nEla.
Procure-a.
Ela se revela a si mesma, por exemplo, em todos os momentos de súbito perigo.
Pode ser um carro correndo em tua direção, enquanto andas distraído; ou a abertura de um buraco sob seus pés; uma brasa ou objeto eletrificado que tocas ao azar. Então em reação, algo violento e extremamente rápido acontece. É tua «vontade», tua «consciência», teu «eu»? Não. Tua vontade, consciência e eu usualmente vêm em seguida. No instante estavam ausentes e fora. Algo mais profundo, mais rápido, mais absoluto que tudo que é subitamente se manifestou, tomou contam e asseverou a si mesmo.
Quando experimentas fome, terror, sede, pânico e espasmo – encontrarás isto de novo, como algo violento, sombrio, indomado. E se tais intimidações permitem a você senti-lo, gradualmente será capaz de experimentá-lo como o fundo invisível de toda tua vida desperta.
As profundas inclinações, fés, atavismos, convicções invencíveis e irracionais; hábitos, caráter, tudo que vive em ti como instinto animal ou como legado biológico; todo a vontade do corpo; a sede cega pela vida, sofreguidão por gerar, preservar, e continuar a si mesmo – tudo isto reconecta e junta no mesmo princípio. Em relação a isto, tens usualmente a mesma liberdade de um cão acorrentado: podes não sentir a corrente, e pensar que estás livre até que tentes ir além de um certo limite. Mas quando tentas isto, a corrente tenciona e te para. Ou te engana: moves em círculo, sem dela se dar conta. Não te iluda: mesmo as «coisas mais altas» obedecem este «deus». Vigie: quanto mais aparecem independentes e livres, mais intimamente e estritamente a obedecem, obedientes a sua magia intoxicante.
Pense consigo mesmo: «Isto é». Se este conhecimento o conduz de volta a si mesmo, e, enquanto experiencias uma senso de frio mortal, sentes uma abismo abrindo-se sob você: «Existo nisto» — então alcançastes o CONHECIMENTO DAS ÁGUAS?.
Julius Evola
A essência desta natureza cósmica primordial é: tornar-se; transformar-se caótica e desordenadamente; fluxo incoercível; geração-destruição; atração-repulsão; terror-desejo; formação-dissolução. Todos estes elementos são combinados em uma mistura incandescente que não conhece repouso.
O sábio fala dela como um espanto e como um terror. A denomina: Fogo vivo e universal; hyle (matéria), Dragão Verde, Quintessência, Primeira Substância, Grande Agente Mágico. O princípio da obra universal é também o princípio de sua «Grande Obra», posto que o Magistério da Criação e o Magistério com o qual o homem realiza a si mesmo de acordo com a Arte real são um e o mesmo.
Esta Matéria nossa não é nem uma abstração da filosofia profana nem um mito ou conto de fadas, mas uma realidade viva e poderosa, o espírito e a vitalidade da Terra e da Vida.
A raça humana não a conhece. Um lei natural providencial a mantém oculta de sua consciência através do espetáculo ilusório dos fenômenos materiais, da realidade sólida, sem a qual não haveria descanso ou paz em sua vida. De acordo com a mesma lei providencial, este véu de ignorância é removido e o olho do Conhecimento é aberto só até certo ponto de crescimento e na presença de uma fortaleza capaz de suportar a visão.
Saiba então que a Vida de tua vida está nEla.
Procure-a.
Ela se revela a si mesma, por exemplo, em todos os momentos de súbito perigo.
Pode ser um carro correndo em tua direção, enquanto andas distraído; ou a abertura de um buraco sob seus pés; uma brasa ou objeto eletrificado que tocas ao azar. Então em reação, algo violento e extremamente rápido acontece. É tua «vontade», tua «consciência», teu «eu»? Não. Tua vontade, consciência e eu usualmente vêm em seguida. No instante estavam ausentes e fora. Algo mais profundo, mais rápido, mais absoluto que tudo que é subitamente se manifestou, tomou contam e asseverou a si mesmo.
Quando experimentas fome, terror, sede, pânico e espasmo – encontrarás isto de novo, como algo violento, sombrio, indomado. E se tais intimidações permitem a você senti-lo, gradualmente será capaz de experimentá-lo como o fundo invisível de toda tua vida desperta.
As profundas inclinações, fés, atavismos, convicções invencíveis e irracionais; hábitos, caráter, tudo que vive em ti como instinto animal ou como legado biológico; todo a vontade do corpo; a sede cega pela vida, sofreguidão por gerar, preservar, e continuar a si mesmo – tudo isto reconecta e junta no mesmo princípio. Em relação a isto, tens usualmente a mesma liberdade de um cão acorrentado: podes não sentir a corrente, e pensar que estás livre até que tentes ir além de um certo limite. Mas quando tentas isto, a corrente tenciona e te para. Ou te engana: moves em círculo, sem dela se dar conta. Não te iluda: mesmo as «coisas mais altas» obedecem este «deus». Vigie: quanto mais aparecem independentes e livres, mais intimamente e estritamente a obedecem, obedientes a sua magia intoxicante.
Pense consigo mesmo: «Isto é». Se este conhecimento o conduz de volta a si mesmo, e, enquanto experiencias uma senso de frio mortal, sentes uma abismo abrindo-se sob você: «Existo nisto» — então alcançastes o CONHECIMENTO DAS ÁGUAS?.
Julius Evola
Filosofia - definição
"Seria preciso poder restituir à palavra 'filosofia' sua significação
original: a filosofia -- o 'amor da sabedoria' -- é a ciência de todos
os princípios fundamentais; esta ciência opera com a intuição, que
'percebe', e não somente com a razão, que 'conclui'. Subjetivamente
falando, a essência da filosofia é a certeza; para os modernos, ao
contrário, a essência da filosofia é a dúvida: o filósofo deve
raciocinar sem nenhuma premissa (voraussetzungsloses Denken),
como se essa condição não fosse ela mesma uma ideia preconcebida; é a
contradição clássica de todo relativismo. Duvida-se de tudo, salvo da
dúvida."
Frithjof Schuon
"A filosofia,designa portanto,primeiramente,uma disposição prévia requerida para alcançar a sabedoria,e pode designar também,por uma natural extensão,a procura que,nascendo dessa disposição,deve conduzir ao conhecimento.É então apenas um estágio preliminar e preparatório,um caminhar para a sabedoria,um grau correspondente a um estado inferior a esta.
O desvio que se produziu depois consistiu em tomar esse grau transitório pelo próprio fim,em pretender substituir a sabedoria pela filosofia,o que implica o esquecimento ou o desconhecimento da verdadeira natureza desta última."
René Guenón
"A filosofia é a reflexão crítica sobre o conhecimento e a cosmovisão. Ela pressupõe conhecimentos extensos, experiência da vida e um certo patrimônio de opiniões formadas que possam se tornar objeto de discussão. Sem isso, a discussão filosófica não tem matéria-prima e se torna puro confronto retórico vazio. Logo, não é atividade para crianças. O ensino da filosofia na escola secundária logo degenera em pura troca de opiniões, quando não em doutrinação ideológica rasteira.
A filosofia em geral, como demonstrou brilhantemente Eric Voegelin, é ela própria um dos tipos de experiência da ordem existencial que se sucedem no decorrer da História; e esse tipo é definido, precisamente, pela busca da ordem interior da alma como medida de aferição da ordem ou desordem na sociedade e na cultura. Ora, a ordem da alma supõe algum tipo de experiência da ordem cósmica ou divina que a precede e articula. Traduzida nos termos práticos mais imediatamente acessíveis à experiência individual, a ordem divina aparece como um sentido da vida, na acepção que Victor Frankl dava ao termo. O sentido da vida, por sua vez, aparece sob a forma concreta de um dever, de uma missão a cumprir. A luta pelo cumprimento do dever instala na alma uma hierarquia de prioridades que se torna, de um lado, a matriz criadora da personalidade adulta e, de outro lado, o órgão sensitivo com que essa personalidade apreenderá e julgará a ordem ou a desordem na sociedade. Eis o motivo pelo qual Aristóteles acreditava que só o spoudaios, "homem maduro", o ser humano adulto de personalidade bem desenvolvida, está capacitado para a participação frutífera na vida política, seja na condição de governante, seja na de cidadão – ou mais ainda na de filósofo."
Olavo de Carvalho
Frithjof Schuon
"A filosofia,designa portanto,primeiramente,uma disposição prévia requerida para alcançar a sabedoria,e pode designar também,por uma natural extensão,a procura que,nascendo dessa disposição,deve conduzir ao conhecimento.É então apenas um estágio preliminar e preparatório,um caminhar para a sabedoria,um grau correspondente a um estado inferior a esta.
O desvio que se produziu depois consistiu em tomar esse grau transitório pelo próprio fim,em pretender substituir a sabedoria pela filosofia,o que implica o esquecimento ou o desconhecimento da verdadeira natureza desta última."
René Guenón
"A filosofia é a reflexão crítica sobre o conhecimento e a cosmovisão. Ela pressupõe conhecimentos extensos, experiência da vida e um certo patrimônio de opiniões formadas que possam se tornar objeto de discussão. Sem isso, a discussão filosófica não tem matéria-prima e se torna puro confronto retórico vazio. Logo, não é atividade para crianças. O ensino da filosofia na escola secundária logo degenera em pura troca de opiniões, quando não em doutrinação ideológica rasteira.
A filosofia em geral, como demonstrou brilhantemente Eric Voegelin, é ela própria um dos tipos de experiência da ordem existencial que se sucedem no decorrer da História; e esse tipo é definido, precisamente, pela busca da ordem interior da alma como medida de aferição da ordem ou desordem na sociedade e na cultura. Ora, a ordem da alma supõe algum tipo de experiência da ordem cósmica ou divina que a precede e articula. Traduzida nos termos práticos mais imediatamente acessíveis à experiência individual, a ordem divina aparece como um sentido da vida, na acepção que Victor Frankl dava ao termo. O sentido da vida, por sua vez, aparece sob a forma concreta de um dever, de uma missão a cumprir. A luta pelo cumprimento do dever instala na alma uma hierarquia de prioridades que se torna, de um lado, a matriz criadora da personalidade adulta e, de outro lado, o órgão sensitivo com que essa personalidade apreenderá e julgará a ordem ou a desordem na sociedade. Eis o motivo pelo qual Aristóteles acreditava que só o spoudaios, "homem maduro", o ser humano adulto de personalidade bem desenvolvida, está capacitado para a participação frutífera na vida política, seja na condição de governante, seja na de cidadão – ou mais ainda na de filósofo."
Olavo de Carvalho
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