Boa parte do esforço
moralizante despendido pela "direita religiosa"
para sanear uma sociedade corrupta é inútil,
já que termina sendo facilmente absorvida pela máquina
da "dissonância cognitiva" e usada como instrumento
de perdição geral.
Notem bem: moralidade não é uma lista de condutas
louváveis e condenáveis, pronta para que o cidadão
a obedeça com o automatismo de um rato de Pavlov.
Moralidade é consciência, é discernimento
pessoal, é busca de uma meta de perfeição
que só aos poucos vai se esclarecendo e encontrando
seus meios de realização entre as contradições
e ambigüidades da vida.
Sto. Tomás de Aquino já ensinava que o problema
maior da existência moral não é conhecer
a regra geral abstrata, mas fazer a ponte entre a unidade
da regra e a variedade inesgotável das situações
concretas, onde freqüentemente somos espremidos entre
deveres contraditórios ou nos vemos perdidos na distância
entre intenções, meios e resultados.
Lutero -- para não dizerem que puxo a brasa para
a sardinha católica -- insistia em que "esta vida
não é a devoção, mas a luta pela
conquista da devoção".
E o santo Padre Pio de Pietrelcina: "É melhor
afastar-se do mundo pouco a pouco, em vez de tudo de uma vez".
A grande literatura -- a começar pela Bíblia
-- está repleta de exemplos de conflitos morais angustiantes,
mostrando que o caminho do bem só é uma linha
reta desde o ponto de vista divino, que tudo abrange num olhar
simultâneo. Para nós, que vivemos no tempo e
na História, tudo é hesitação,
lusco-fusco, tentativa e erro. Só aos poucos, orientada
pela graça divina, a luz da experiência vai dissipando
a névoa das aparências.
Consciência -- especialmente consciência moral
-- não é um objeto, uma coisa que você
possua. É um esforço permanente de integração,
a busca da unidade para além e por cima do caos imediato.
É unificação do diverso, é resolução
de contradições.
Os códigos de conduta consagrados pela sociedade,
transmitidos pela educação e pela cultura, não
são jamais a solução do problema moral:
são quadros de referência, muito amplos e genéricos,
que dão apoio à consciência no seu esforço
de unificação da conduta individual. Estão
para a consciência de cada um como o desenho do edifício
está para o trabalho do construtor: dizem por alto
qual deve ser a forma final da obra, não como a construção
deve ser empreendida em cada uma das suas etapas.
Quando os códigos são vários e contraditórios,
é a própria forma final que se torna incongruente
e irreconhecível, desgastando as almas em esforços
vãos que as levarão a enroscar-se em problemas
cada vez mais insolúveis e, em grande número
de casos, a desistir de todo esforço moral sério.
Muito do relativismo e da amoralidade reinantes não
são propriamente crenças ou ideologias: são
doenças da alma, adquiridas por esgotamento da inteligência
moral.
Em tais circunstâncias, lutar por este ou aquele princípio
moral em particular, sem ter em conta que, na mistura reinante,
todos os princípios são bons como combustíveis
para manter em funcionamento a engenharia da dissonância
cognitiva, pode ser de uma ingenuidade catastrófica.
O que é preciso denunciar não é este
ou aquele pecado em particular, esta ou aquela forma de imoralidade
específica: é o quadro inteiro de uma cultura
montada para destruir, na base, a possibilidade mesma da consciência
moral. O caso de Tiger Woods, que citei no artigo, é
um entre milhares. Escândalos de adultério espoucam
a toda hora na mesma mídia que advoga o abortismo,
o sexo livre e o gayzismo. A contradição é
tão óbvia e constante que nenhum aglomerado
de curiosas coincidências poderia jamais explicá-la.
Ela é uma opção política, a demolição
planejada do discernimento moral. Muitas pessoas que se escandalizam
com imoralidades específicas não percebem nem
mesmo de longe a indústria do escândalo geral
e permanente, em que as denúncias de imoralidade se
integram utilmente como engrenagens na linha de produção.
Ou a luta contra o mal começa pela luta contra a confusão,
ou só acaba contribuindo para a confusão entre
o bem e o mal.
Olavo de Carvalho