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segunda-feira, 24 de outubro de 2016

Escolas

A partir dos anos 60, em que as universidades são ocupadas por esse pessoal militante, gramsciano etc., aí é que se torna assim. Pior ainda, porque o objetivo ali não é despertar efetivamente a capacidade intelectual do sujeito, mas moldá-la para que ele se comporte desta ou daquela maneira. Para que ele se integre no grupo, diga as mesmas coisas que o grupo está dizendo, sinta as mesmas coisas e seja facilmente mobilizável para esta ou aquela reivindicação ou organização política etc. Podemos dizer que, no Brasil, praticamente toda a educação se transformou em educação social e adestramento.

Quando você vê as coisas que aconteceram na semana passada na USP, aqueles movimentos reivindicatórios, aquela coisa toda. Em nenhum momento aparece na cabeça daquelas pessoas a idéia de que aquilo é uma universidade pública e, portanto, eles não pagam nada pelo que estão recebendo, é tudo de graça. E tudo o que é de graça foi extraído dos impostos pagos não por moleques, mas por pessoas de 40, de 50 anos que estão trabalhando — que vão desde a classe média até o operariado mesmo — está todo mundo ali pagando imposto. Você não compra nada, não compra um maço de cigarro sem pagar imposto, não compra um saco de feijão sem pagar imposto. Todo mundo está pagando imposto, menos aqueles camaradas, eles só estão recebendo, quer dizer, eles não estão fazendo nada pela sociedade, eles estão recebendo tudo e de graça. E na hora em que um sujeito desses sente que tem direito a reivindicar, ele já se transformou num bandido automaticamente. [00:20] Ele não tem direito de reivindicar nada, nada, nada. Quem está recebendo de graça tem de calar a boca e fazer o que lhe mandam. Quem tem o direito de reivindicar é quem está trabalhando, é quem está produzindo.

Por exemplo, o cidadão que paga 40% de imposto tem todo o direito de fazer uma greve, de parar, de xingar o governador de Estado, xingar ministro etc. Agora, molecada que está recebendo tudo de graça, e que não contribui nem com imposto e nem com trabalho, é um absurdo que a pessoa se sinta habilitada a reivindicar. É uma coisa muito, vamos dizer... a famosa regra áurea da convivência humana, que é o segundo mandamento: “Ama a teu próximo como a ti mesmo”, que significa que você deve dar ao outro o mesmo tratamento que você deseja receber. Então naturalmente aquele que está sendo beneficiado com o ensino gratuito, e às vezes moradia gratuita e não sei que mais gratuito, assistência médica gratuita etc., ele deveria pensar: “Como eu posso reivindicar mais do que eu poderia dar? Não faz sentido isto, isto é um insulto às pessoas pobres que estão trabalhando para me manter aqui.”

Um operário de fábrica ou um trabalhador qualquer que faz uma greve ou um movimento, está reivindicando em nome daquilo que ele deu: “Eu trabalhei aqui, eu fiz isso, mais aquilo, mais aquilo, mais aquilo, e o que eu estou recebendo em troca é injusto.” Agora, o estudante que não deu absolutamente nada e que está recebendo tudo?! Como é que essas pessoas não percebem a sua verdadeira situação social? É simples: porque a própria circunstância social na qual eles vivem os ensina a encará-la não com o espírito de conhecimento e de objetividade científica, mas com o espírito de adestramento para certas atividades reivindicatórias, políticas, revolucionárias etc. Isto quer dizer que o sujeito não sabe onde ele está e não sabe o que está fazendo, ele só sabe aquilo que os seus colegas e os seus gurus acham que ele deve fazer, e que instigam nele a revolta e o ódio contra aqueles que não fazem. Isto aí é adestramento de macaco, evidentemente.

Curiosamente, embora esse tipo de atitude induza o indivíduo ao servilismo grupal mais extremo, ao ponto dele sentir que quem não pertence ao seu grupo não presta, é um fascista etc. Acabo de ver o documentário da USP, o pessoal chamando os outros de fascistas só porque os outros não queriam entrar na greve também, não queriam entrar no movimento também, até batendo nos caras. Essas pessoas foram adestradas para não saber onde estão, não saber qual é a sua verdadeira posição social, mas saber o que eles têm de fazer para serem aceitos no grupo. Embora essa educação concebida assim seja extremamente autoritária — o máximo do autoritarismo possível, onde tentar compreender a realidade é proibido e a única coisa permitida é comportar-se do jeito que se espera que você se comporte —, as pessoas acreditam que, ao contrário, elas estão lutando pela liberdade. Quando chega nesse ponto está tudo perdido, as pessoas intelectualmente se transformaram em lixo e dali nunca vai sair nada. Para um sujeito desses um dia começar a raciocinar criticamente — eles falam tanto em pensamento crítico, análise crítica etc., mas onde eles exercem essa crítica? Eles exercem essa crítica sobre coisas que nunca viram, e jamais raciocinam criticamente sobre a sua própria situação.

Por exemplo, vamos supor, quando um sujeito, num movimento desses, grita para o outro: “fascista!”. Eu digo: você imagina um aluno da USP fazendo um movimento para que o Estado lhe dê ainda mais do que já está dando, em troca de nada, e que ele vê outro lá estudando e o chama de fascista. Ele está imaginando que existe um governo nazi-fascista, um Mussolini, um Hitler, e que ele heroicamente é um membro da resistência. É claro que é uma imaginação totalmente deslocada da situação real. E se entra, por exemplo, a polícia lá um minuto, eles fazem um quebra-quebra. E se entra a polícia para parar, aí é que eles são confirmados na sua loucura: “Está vendo?! São as tropas fascistas vindo aqui para nos esmagar.” Esse pessoal passa a vida num sistema mitológico, totalmente deslocado da realidade e aprendem a jamais perceber o que elas mesmas estão fazendo.

Quando você não tem idéia de si próprio como agente produtor da situação, então você está totalmente alienado, porque, às vezes, nós não entendemos como é que a sociedade funciona e o que está acontecendo, mas, pelo menos, nós temos de saber o que nós estamos fazendo, quais são as conseqüências das nossas ações e qual é o peso delas dentro do contexto. A situação verdadeira é de "filhinhos de papai e mamãe" que estão recebendo tudo de graça em troca de absolutamente nada e que estão revoltadíssimos com o papai, com a mamãe, com a sociedade, com o maldito capitalismo, com o governo que lhes deu tudo etc. Esta é a situação real. Na cabeça deles, eles são o proletariado em luta contra a opressão fascista. É claro que estão vivendo em um teatrinho imaginário e vão passar a vida assim. E desse teatrinho imaginário vai sair todo um conjunto de mecanismos de linguagem, um conjunto de associações de idéias e de metáforas, uma retórica inteira que os vai manter dentro desse mundo ilusório, dessa segunda realidade pelo resto de suas vidas. Alguns chegam aos sessenta, setenta anos e ainda estão metidos nisso


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