A
partir dos anos 60, em que as universidades são ocupadas por esse pessoal
militante, gramsciano etc., aí é que se torna assim. Pior ainda, porque o
objetivo ali não é despertar efetivamente a capacidade intelectual do sujeito,
mas moldá-la para que ele se comporte desta ou daquela maneira. Para que ele se
integre no grupo, diga as mesmas coisas que o grupo está dizendo, sinta as
mesmas coisas e seja facilmente mobilizável para esta ou aquela reivindicação
ou organização política etc. Podemos dizer que, no Brasil, praticamente toda a
educação se transformou em educação social e adestramento.
Quando
você vê as coisas que aconteceram na semana passada na USP, aqueles movimentos
reivindicatórios, aquela coisa toda. Em nenhum momento aparece na cabeça
daquelas pessoas a idéia de que aquilo é uma universidade pública e, portanto,
eles não pagam nada pelo que estão recebendo, é tudo de graça. E tudo o que é
de graça foi extraído dos impostos pagos não por moleques, mas por pessoas de
40, de 50 anos que estão trabalhando — que vão desde a classe média até o
operariado mesmo — está todo mundo ali pagando imposto. Você não compra nada,
não compra um maço de cigarro sem pagar imposto, não compra um saco de feijão
sem pagar imposto. Todo mundo está pagando imposto, menos aqueles camaradas,
eles só estão recebendo, quer dizer, eles não estão fazendo nada pela
sociedade, eles estão recebendo tudo e de graça. E na hora em que um sujeito
desses sente que tem direito a reivindicar, ele já se transformou num bandido
automaticamente. [00:20] Ele não tem direito de reivindicar nada, nada, nada.
Quem está recebendo de graça tem de calar a boca e fazer o que lhe mandam. Quem
tem o direito de reivindicar é quem está trabalhando, é quem está produzindo.
Por
exemplo, o cidadão que paga 40% de imposto tem todo o direito de fazer uma
greve, de parar, de xingar o governador de Estado, xingar ministro etc. Agora,
molecada que está recebendo tudo de graça, e que não contribui nem com imposto
e nem com trabalho, é um absurdo que a pessoa se sinta habilitada a
reivindicar. É uma coisa muito, vamos dizer... a famosa regra áurea da
convivência humana, que é o segundo mandamento: “Ama a teu próximo como a ti
mesmo”, que significa que você deve dar ao outro o mesmo tratamento que você
deseja receber. Então naturalmente aquele que está sendo beneficiado com o
ensino gratuito, e às vezes moradia gratuita e não sei que mais gratuito,
assistência médica gratuita etc., ele deveria pensar: “Como eu posso
reivindicar mais do que eu poderia dar? Não faz sentido isto, isto é um insulto
às pessoas pobres que estão trabalhando para me manter aqui.”
Um
operário de fábrica ou um trabalhador qualquer que faz uma greve ou um
movimento, está reivindicando em nome daquilo que ele deu: “Eu trabalhei aqui,
eu fiz isso, mais aquilo, mais aquilo, mais aquilo, e o que eu estou recebendo
em troca é injusto.” Agora, o estudante que não deu absolutamente nada e que
está recebendo tudo?! Como é que essas pessoas não percebem a sua verdadeira
situação social? É simples: porque a própria circunstância social na qual eles
vivem os ensina a encará-la não com o espírito de conhecimento e de
objetividade científica, mas com o espírito de adestramento para certas
atividades reivindicatórias, políticas, revolucionárias etc. Isto quer dizer
que o sujeito não sabe onde ele está e não sabe o que está fazendo, ele só sabe
aquilo que os seus colegas e os seus gurus acham que ele deve fazer, e que instigam
nele a revolta e o ódio contra aqueles que não fazem. Isto aí é adestramento de
macaco, evidentemente.
Curiosamente,
embora esse tipo de atitude induza o indivíduo ao servilismo grupal mais
extremo, ao ponto dele sentir que quem não pertence ao seu grupo não presta, é
um fascista etc. Acabo de ver o documentário da USP, o pessoal chamando os
outros de fascistas só porque os outros não queriam entrar na greve também, não
queriam entrar no movimento também, até batendo nos caras. Essas pessoas foram
adestradas para não saber onde estão, não saber qual é a sua verdadeira posição
social, mas saber o que eles têm de fazer para serem aceitos no grupo. Embora
essa educação concebida assim seja extremamente autoritária — o máximo do
autoritarismo possível, onde tentar compreender a realidade é proibido e a
única coisa permitida é comportar-se do jeito que se espera que você se
comporte —, as pessoas acreditam que, ao contrário, elas estão lutando pela
liberdade. Quando chega nesse ponto está tudo perdido, as pessoas
intelectualmente se transformaram em lixo e dali nunca vai sair nada. Para um
sujeito desses um dia começar a raciocinar criticamente — eles falam tanto em
pensamento crítico, análise crítica etc., mas onde eles exercem essa crítica?
Eles exercem essa crítica sobre coisas que nunca viram, e jamais raciocinam
criticamente sobre a sua própria situação.
Por
exemplo, vamos supor, quando um sujeito, num movimento desses, grita para o
outro: “fascista!”. Eu digo: você imagina um aluno da USP fazendo um movimento
para que o Estado lhe dê ainda mais do que já está dando, em troca de nada, e
que ele vê outro lá estudando e o chama de fascista. Ele está imaginando que
existe um governo nazi-fascista, um Mussolini, um Hitler, e que ele
heroicamente é um membro da resistência. É claro que é uma imaginação
totalmente deslocada da situação real. E se entra, por exemplo, a polícia lá um
minuto, eles fazem um quebra-quebra. E se entra a polícia para parar, aí é que
eles são confirmados na sua loucura: “Está vendo?! São as tropas fascistas
vindo aqui para nos esmagar.” Esse pessoal passa a vida num sistema mitológico,
totalmente deslocado da realidade e aprendem a jamais perceber o que elas
mesmas estão fazendo.
Quando
você não tem idéia de si próprio como agente produtor da situação, então você
está totalmente alienado, porque, às vezes, nós não entendemos como é que a sociedade
funciona e o que está acontecendo, mas, pelo menos, nós temos de saber o que
nós estamos fazendo, quais são as conseqüências das nossas ações e qual é o
peso delas dentro do contexto. A situação verdadeira é de "filhinhos de
papai e mamãe" que estão recebendo tudo de graça em troca de absolutamente
nada e que estão revoltadíssimos com o papai, com a mamãe, com a sociedade, com
o maldito capitalismo, com o governo que lhes deu tudo etc. Esta é a situação
real. Na cabeça deles, eles são o proletariado em luta contra a opressão
fascista. É claro que estão vivendo em um teatrinho imaginário e vão passar a
vida assim. E desse teatrinho imaginário vai sair todo um conjunto de
mecanismos de linguagem, um conjunto de associações de idéias e de metáforas, uma
retórica inteira que os vai manter dentro desse mundo ilusório, dessa segunda
realidade pelo resto de suas vidas. Alguns chegam aos sessenta, setenta anos e
ainda estão metidos nisso
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