Vamos considerar uma frase de Michel de
Montaigne: “Nós não temos nenhum acesso ao Ser.” Ele pode criar um discurso
lógico para demonstrar isso. Este discurso lógico será coerente em si mesmo,
mas pergunto eu: em que universo está colocado este discurso? Em que universo
Michel de Montaigne disse isso? Ele imagina que disse isso em um universo
separado que é sua própria mente. Ele está dizendo: a minha mente tem uma
totalidade, uma unidade, e dentro dela eu chego a uma conclusão de que não
tenho acesso ao Ser. Portanto, este discurso se desenrola em um mundo separado
que não é o mundo do Ser. Mas se é assim, como é que conseguimos ler este
discurso? Se você não tem acesso ao Ser, como é que eu tenho acesso ao seu
texto? O fato de que eu, transcorridos quatro séculos da morte de Michel de
Montaigne, possa ir a uma livraria comprar uma edição do livro dele, isso se
desenrola no mundo mental de Michel de Montaigne? Não é possível. Então, o
conteúdo da afirmação “nós não temos acesso ao Ser”, desmente a unidade do real
porque está pressupondo um mundo mental separado. O fato de que nós consigamos
criar um discurso e prestar atenção somente nele, fazendo abstração de tudo o
mais, é algo que evidentemente nos engana, pois não é por você prestar atenção
só em uma coisa que todas as outras desaparecem. Por exemplo: para que Michel
de Montaigne tivesse dito isto foi preciso que ele tivesse nascido algum dia, e
para isso papai e mamãe Montaigne tiveram de praticar certos atos libidinosos
que não fazem parte de maneira alguma do mundo mental de Michel de Montaigne, o
qual naquele momento ainda não existia. Se eu sei que nasci, como posso dizer
que não tenho nenhum acesso ao Ser?
Se
minha própria existência física não é um elemento do meu mundo mental, mas é,
ao contrário, um pressuposto externo do meu mundo mental — externo e anterior.
Nós conseguimos fazer discursos lógicos porque temos o senso da unidade do
real, mas ao mesmo tempo, no conteúdo do discurso que criamos, podemos
consciente ou inconscientemente, voluntária ou involuntariamente, negar a
unidade do real. Assim, nós nos colocamos dentro de um mundo fictício de
discurso que imaginamos estar separado da unidade do real, mas que de fato não
está. Este é o princípio de todos os enganos em filosofia. A capacidade de raciocínio
lógico encanta de tal modo seu possuidor, que este acredita mais no conteúdo do
raciocínio lógico que ele mesmo criou do que nas condições existenciais, reais,
efetivas que permitiram que ele criasse este discurso. Exatamente como o
sujeito que serra o galho no qual está sentado. Isso acontece em filosofia com
uma constância incrível. Por exemplo, René Descartes acreditava no seguinte:
“Eu sei que Deus criou o mundo, mas se eu supuser que Ele criou o mundo apenas
colocando duas ou três leis em ação e que tudo o mais se desenrolou
automaticamente, eu posso chegar a uma descrição efetiva do universo — eu sei
que não é assim, mas isso funcionaria do mesmo modo.” Ou seja, Descartes coloca
o pressuposto naturalista como ficção; ele sabe que é ficção e declara que é
ficção. A capacidade que nós temos de raciocinar logicamente a partir de
premissas ficcionais, premissas que nós mesmos colocamos e que, embora sejam
falsas, podem parecer com a realidade, é evidentemente uma das capacidades mais
perigosas que o ser humano tem, porque tudo funciona como se as coisas fossem
exatamente assim. E quanto mais exata for a descrição, mais enganado você
estará. O universo inteiro da premissa naturalística é ficcional e sua origem
não é científica.
Até o século XVIII, quando se consolidou
esta idéia, não havia conhecimentos científicos suficientes para embasar uma
premissa naturalística. Existe um autor chamado Cornelius Hunter, verdadeiro
gênio, que descobriu o seguinte: não é que as descobertas científicas confirmavam
a premissa naturalística; não, elas eram interpretadas de acordo com esta
premissa e, portanto, sempre a confirmavam porque eram lidas assim; se fossem
lidas de outra maneira, se chegaria a outra conclusão. Então, o naturalismo se
tornou uma espécie de profecia auto-realizável.
A profecia auto-realizável, por sua vez, é um mundo separado, ficcional,
no qual alguém entra e se confirma eternamente a si mesmo, sem ser capaz de
enxergar nada mais para além daquilo. E onde alguém pode enxergar, porém, não o
faz como filósofo ou como cientista, mas apenas como ser humano na sua
existência real. Contudo, a mesma premissa determina que é ilegítimo o apelo à
experiência pessoal real, e só é legítimo o apelo à experiência já recortada e
confirmada pela comunidade científica. Então, de fato, trata-se de um delírio:
uma profecia que se autoconfirma e que o faz coletivamente. É uma espécie de
doença mental, evidentemente.
Então, tudo isso mostra como uma educação
científica, em vez de fazer parte da alta cultura, pode ser um elemento que
incapacita as pessoas eternamente para a aquisição de alta cultura. Ou seja: o
que há de educativo no mundo das ciências é apenas aquele núcleo metodológico e
lógico, e não o conjunto inteiro das observações e teorias que constituem uma
ciência.
A palavra “ciência” em si mesma é
ambígua, tem várias camadas de significado. Vejamos algumas, sem pretensão de
sermos exaustivos. Em primeiro lugar, ciência significa o ideal de ciência tal
como Sócrates, Platão e Aristóteles o formularam em oposição à doxa, ao mundo
da opinião. Então a ciência, ou episteme, é aquele conhecimento que é
demonstrativo, que não apenas afirma algo, que não apenas persuade as pessoas,
mas fornece os elementos de prova necessários para saber que as coisas não
podem ser de outro modo senão daquele modo a que a sua conclusão lógica levou.
Então, a idéia de alcançar um conhecimento demonstrativo, apodíctico — apo quer
dizer “não”, é um negativo, e deiksis quer dizer “destruir”, logo,
indestrutível —, a idéia de um conhecimento indestrutível é o ideal inicial da
ciência.
Aristóteles
sabia perfeitamente que este ideal só pode ser realizado de maneira parcial e
imperfeita. E, no entanto, era o mesmo ideal que dava forma e sentido aos
esforços científicos ainda que frustrados. Aristóteles entendia o mundo da
natureza como o mundo onde as coisas estão em constante transformação e, por
isso mesmo, não acreditava em constantes da natureza, mas apenas em
estabilizações provisórias — ele está muito mais perto da física quântica do
que do mundo de Newton. E, por isso mesmo, ele dizia que o campo inteiro das
ciências naturais não podia ser reduzido à ciência no sentido estrito e
perfeito. Não existia uma episteme da natureza: isto é fundamental. Não existia
uma ciência exata e perfeita da natureza, portanto o conhecimento da natureza
teria de ser sempre tentativo (existe essa palavra em inglês, nós podemos
adotá-la em português: tentativo, experimental). Ora, Aristóteles disse isso
quatrocentos anos antes de Cristo.
E esta é a primeira camada de significado
da palavra “ciência”: o ideal da ciência e a consciência de que, para a quase
totalidade dos domínios da realidade, este ideal não será realizado, mas, ao
mesmo tempo, você não pode abdicar dele, porque é ele que dá a forma lógica do
esforço que você está fazendo. Ou seja, a ciência se aproxima do seu ideal de
conhecimento apodíctico como numa assíntota, uma curva que vai chegando,
chegando, mas nunca chega. Sendo, em qualquer momento, impossível dizer se você
se aproximou mais ou menos, ou seja, não há uma distância absoluta, há uma
distância que aumenta na medida em que diminui. Isso significa que a assíntota
é caracterizada pelo paradoxo. Logo, a ciência efetivamente existente tem uma
relação paradoxal com o seu ideal. É este o que determina a forma lógica pela
qual nós reconhecemos uma atividade como científica, ele é a medida da
cientificidade da ciência e, ao mesmo tempo, ele é a negação dessa
cientificidade. Ou seja, comparado com o ideal de ciência nenhuma ciência é
ciência, é apenas uma tentativa de ciência. Note bem que aí já estava dado tudo
que o Popper vem a dizer mais tarde sobre a refutabilidade etc. etc. Tudo já
estava dado ali.
A formulação que Aristóteles dá do método
científico é a mais perfeita que alguém já deu. No entanto, quando a partir do
século XVI começa a se formar uma nova intelectualidade que já não tem a
formação escolástica completa, mas apenas aquele mínimo que as pessoas da
nobreza recebiam freqüentando alguns colégios durante algum tempo, duas ou três
gotinhas de ensinamento escolástico, e achavam que conheciam a escolástica,
Aristóteles etc. etc.
Quando lemos Bacon, por exemplo, ele
escreve toda sua obra como uma crítica do aristotelismo e uma inversão do
aristotelismo, é o que ele imagina [fazer]. E diz o seguinte: “Aristóteles usa
um método dedutivo no qual parte de afirmações gerais e conclui as
particulares, portanto, ele despreza a observação e experimentação da natureza.
E nós temos de fazer exatamente o contrário, nós temos de usar um método
indutivo; ou seja, nós temos de observar os fatos e, gradativamente, ir criando
as generalizações.” Mas observar os fatos e, gradativamente, ir criando as
generalizações, foi justamente o que Aristóteles disse que era a única coisa
com possibilidade de ser feita na ciência da natureza. Ou seja, é o mesmo que
dizer: Bacon ignorava a filosofia de Aristóteles total e profundamente, e
simplesmente não entendia o que estava lendo, ou então recebeu uma informação
falsa. Do mesmo modo, Descartes também recebeu informação falsa.
Ora, se o sujeito não sabe
onde está a atividade dele dentro do desenvolvimento histórico da disciplina
que está praticando, então ele já está fora da realidade. Ou seja: a referência
que ele tem, a totalidade do que ele sabe sobre o que está estudando está
colocada fora da realidade histórica dessa mesma atividade. E isso já é um
elemento de alienação gravíssimo, porque ele não sabe qual é o status
quaestionis. Então podemos dizer: todos os críticos de Aristóteles, da
Renascença para adiante, que criaram a ciência moderna, não tinham a menor
idéia do que é [a filosofia de] Aristóteles.
Foi só no século XX que os estudiosos
descobriram que a famosa dialética de Aristóteles é o método científico, afinal
de contas. Isso hoje em dia, entre os estudiosos especializados da área, é um
consenso total. Mas durante quatro séculos a história das ciências se desenrola
numa complacente ignorância do seu próprio lugar na história do desenvolvimento
do método científico. Esse deslocamento, essa defasagem, entre o conteúdo das
ciências e o lugar que elas ocupam historicamente vai afetar profundamente o
conteúdo das próprias ciências. Do mesmo modo que, por exemplo, você supõe que
é Napoleão Bonaparte e começa a agir logicamente em função da premissa de que
você é Napoleão Bonaparte, é absolutamente impossível que a falsidade da
premissa não acabe se introduzindo nos próprios atos que você está praticando.
A ciência é a mesma coisa.
Aula 17 cof
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