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sábado, 12 de novembro de 2016

Nós não temos nenhum acesso ao Ser

      Vamos considerar uma frase de Michel de Montaigne: “Nós não temos nenhum acesso ao Ser.” Ele pode criar um discurso lógico para demonstrar isso. Este discurso lógico será coerente em si mesmo, mas pergunto eu: em que universo está colocado este discurso? Em que universo Michel de Montaigne disse isso? Ele imagina que disse isso em um universo separado que é sua própria mente. Ele está dizendo: a minha mente tem uma totalidade, uma unidade, e dentro dela eu chego a uma conclusão de que não tenho acesso ao Ser. Portanto, este discurso se desenrola em um mundo separado que não é o mundo do Ser. Mas se é assim, como é que conseguimos ler este discurso? Se você não tem acesso ao Ser, como é que eu tenho acesso ao seu texto? O fato de que eu, transcorridos quatro séculos da morte de Michel de Montaigne, possa ir a uma livraria comprar uma edição do livro dele, isso se desenrola no mundo mental de Michel de Montaigne? Não é possível. Então, o conteúdo da afirmação “nós não temos acesso ao Ser”, desmente a unidade do real porque está pressupondo um mundo mental separado. O fato de que nós consigamos criar um discurso e prestar atenção somente nele, fazendo abstração de tudo o mais, é algo que evidentemente nos engana, pois não é por você prestar atenção só em uma coisa que todas as outras desaparecem. Por exemplo: para que Michel de Montaigne tivesse dito isto foi preciso que ele tivesse nascido algum dia, e para isso papai e mamãe Montaigne tiveram de praticar certos atos libidinosos que não fazem parte de maneira alguma do mundo mental de Michel de Montaigne, o qual naquele momento ainda não existia. Se eu sei que nasci, como posso dizer que não tenho nenhum acesso ao Ser?


      Se minha própria existência física não é um elemento do meu mundo mental, mas é, ao contrário, um pressuposto externo do meu mundo mental — externo e anterior. Nós conseguimos fazer discursos lógicos porque temos o senso da unidade do real, mas ao mesmo tempo, no conteúdo do discurso que criamos, podemos consciente ou inconscientemente, voluntária ou involuntariamente, negar a unidade do real. Assim, nós nos colocamos dentro de um mundo fictício de discurso que imaginamos estar separado da unidade do real, mas que de fato não está. Este é o princípio de todos os enganos em filosofia. A capacidade de raciocínio lógico encanta de tal modo seu possuidor, que este acredita mais no conteúdo do raciocínio lógico que ele mesmo criou do que nas condições existenciais, reais, efetivas que permitiram que ele criasse este discurso. Exatamente como o sujeito que serra o galho no qual está sentado. Isso acontece em filosofia com uma constância incrível. Por exemplo, René Descartes acreditava no seguinte: “Eu sei que Deus criou o mundo, mas se eu supuser que Ele criou o mundo apenas colocando duas ou três leis em ação e que tudo o mais se desenrolou automaticamente, eu posso chegar a uma descrição efetiva do universo — eu sei que não é assim, mas isso funcionaria do mesmo modo.” Ou seja, Descartes coloca o pressuposto naturalista como ficção; ele sabe que é ficção e declara que é ficção. A capacidade que nós temos de raciocinar logicamente a partir de premissas ficcionais, premissas que nós mesmos colocamos e que, embora sejam falsas, podem parecer com a realidade, é evidentemente uma das capacidades mais perigosas que o ser humano tem, porque tudo funciona como se as coisas fossem exatamente assim. E quanto mais exata for a descrição, mais enganado você estará. O universo inteiro da premissa naturalística é ficcional e sua origem não é científica.    
     Até o século XVIII, quando se consolidou esta idéia, não havia conhecimentos científicos suficientes para embasar uma premissa naturalística. Existe um autor chamado Cornelius Hunter, verdadeiro gênio, que descobriu o seguinte: não é que as descobertas científicas confirmavam a premissa naturalística; não, elas eram interpretadas de acordo com esta premissa e, portanto, sempre a confirmavam porque eram lidas assim; se fossem lidas de outra maneira, se chegaria a outra conclusão. Então, o naturalismo se tornou uma espécie de profecia auto-realizável.
      A profecia auto-realizável,  por sua vez, é um mundo separado, ficcional, no qual alguém entra e se confirma eternamente a si mesmo, sem ser capaz de enxergar nada mais para além daquilo. E onde alguém pode enxergar, porém, não o faz como filósofo ou como cientista, mas apenas como ser humano na sua existência real. Contudo, a mesma premissa determina que é ilegítimo o apelo à experiência pessoal real, e só é legítimo o apelo à experiência já recortada e confirmada pela comunidade científica. Então, de fato, trata-se de um delírio: uma profecia que se autoconfirma e que o faz coletivamente. É uma espécie de doença mental, evidentemente.

     Então, tudo isso mostra como uma educação científica, em vez de fazer parte da alta cultura, pode ser um elemento que incapacita as pessoas eternamente para a aquisição de alta cultura. Ou seja: o que há de educativo no mundo das ciências é apenas aquele núcleo metodológico e lógico, e não o conjunto inteiro das observações e teorias que constituem uma ciência.
      A palavra “ciência” em si mesma é ambígua, tem várias camadas de significado. Vejamos algumas, sem pretensão de sermos exaustivos. Em primeiro lugar, ciência significa o ideal de ciência tal como Sócrates, Platão e Aristóteles o formularam em oposição à doxa, ao mundo da opinião. Então a ciência, ou episteme, é aquele conhecimento que é demonstrativo, que não apenas afirma algo, que não apenas persuade as pessoas, mas fornece os elementos de prova necessários para saber que as coisas não podem ser de outro modo senão daquele modo a que a sua conclusão lógica levou. Então, a idéia de alcançar um conhecimento demonstrativo, apodíctico — apo quer dizer “não”, é um negativo, e deiksis quer dizer “destruir”, logo, indestrutível —, a idéia de um conhecimento indestrutível é o ideal inicial da ciência.

     Aristóteles sabia perfeitamente que este ideal só pode ser realizado de maneira parcial e imperfeita. E, no entanto, era o mesmo ideal que dava forma e sentido aos esforços científicos ainda que frustrados. Aristóteles entendia o mundo da natureza como o mundo onde as coisas estão em constante transformação e, por isso mesmo, não acreditava em constantes da natureza, mas apenas em estabilizações provisórias — ele está muito mais perto da física quântica do que do mundo de Newton. E, por isso mesmo, ele dizia que o campo inteiro das ciências naturais não podia ser reduzido à ciência no sentido estrito e perfeito. Não existia uma episteme da natureza: isto é fundamental. Não existia uma ciência exata e perfeita da natureza, portanto o conhecimento da natureza teria de ser sempre tentativo (existe essa palavra em inglês, nós podemos adotá-la em português: tentativo, experimental). Ora, Aristóteles disse isso quatrocentos anos antes de Cristo.

    E esta é a primeira camada de significado da palavra “ciência”: o ideal da ciência e a consciência de que, para a quase totalidade dos domínios da realidade, este ideal não será realizado, mas, ao mesmo tempo, você não pode abdicar dele, porque é ele que dá a forma lógica do esforço que você está fazendo. Ou seja, a ciência se aproxima do seu ideal de conhecimento apodíctico como numa assíntota, uma curva que vai chegando, chegando, mas nunca chega. Sendo, em qualquer momento, impossível dizer se você se aproximou mais ou menos, ou seja, não há uma distância absoluta, há uma distância que aumenta na medida em que diminui. Isso significa que a assíntota é caracterizada pelo paradoxo. Logo, a ciência efetivamente existente tem uma relação paradoxal com o seu ideal. É este o que determina a forma lógica pela qual nós reconhecemos uma atividade como científica, ele é a medida da cientificidade da ciência e, ao mesmo tempo, ele é a negação dessa cientificidade. Ou seja, comparado com o ideal de ciência nenhuma ciência é ciência, é apenas uma tentativa de ciência. Note bem que aí já estava dado tudo que o Popper vem a dizer mais tarde sobre a refutabilidade etc. etc. Tudo já estava dado ali.

    A formulação que Aristóteles dá do método científico é a mais perfeita que alguém já deu. No entanto, quando a partir do século XVI começa a se formar uma nova intelectualidade que já não tem a formação escolástica completa, mas apenas aquele mínimo que as pessoas da nobreza recebiam freqüentando alguns colégios durante algum tempo, duas ou três gotinhas de ensinamento escolástico, e achavam que conheciam a escolástica, Aristóteles etc. etc.    
     Quando lemos Bacon, por exemplo, ele escreve toda sua obra como uma crítica do aristotelismo e uma inversão do aristotelismo, é o que ele imagina [fazer]. E diz o seguinte: “Aristóteles usa um método dedutivo no qual parte de afirmações gerais e conclui as particulares, portanto, ele despreza a observação e experimentação da natureza. E nós temos de fazer exatamente o contrário, nós temos de usar um método indutivo; ou seja, nós temos de observar os fatos e, gradativamente, ir criando as generalizações.” Mas observar os fatos e, gradativamente, ir criando as generalizações, foi justamente o que Aristóteles disse que era a única coisa com possibilidade de ser feita na ciência da natureza. Ou seja, é o mesmo que dizer: Bacon ignorava a filosofia de Aristóteles total e profundamente, e simplesmente não entendia o que estava lendo, ou então recebeu uma informação falsa. Do mesmo modo, Descartes também recebeu informação falsa.
Ora, se o sujeito não sabe onde está a atividade dele dentro do desenvolvimento histórico da disciplina que está praticando, então ele já está fora da realidade. Ou seja: a referência que ele tem, a totalidade do que ele sabe sobre o que está estudando está colocada fora da realidade histórica dessa mesma atividade. E isso já é um elemento de alienação gravíssimo, porque ele não sabe qual é o status quaestionis. Então podemos dizer: todos os críticos de Aristóteles, da Renascença para adiante, que criaram a ciência moderna, não tinham a menor idéia do que é [a filosofia de] Aristóteles.

     Foi só no século XX que os estudiosos descobriram que a famosa dialética de Aristóteles é o método científico, afinal de contas. Isso hoje em dia, entre os estudiosos especializados da área, é um consenso total. Mas durante quatro séculos a história das ciências se desenrola numa complacente ignorância do seu próprio lugar na história do desenvolvimento do método científico. Esse deslocamento, essa defasagem, entre o conteúdo das ciências e o lugar que elas ocupam historicamente vai afetar profundamente o conteúdo das próprias ciências. Do mesmo modo que, por exemplo, você supõe que é Napoleão Bonaparte e começa a agir logicamente em função da premissa de que você é Napoleão Bonaparte, é absolutamente impossível que a falsidade da premissa não acabe se introduzindo nos próprios atos que você está praticando. A ciência é a mesma coisa.

Aula 17 cof

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