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segunda-feira, 7 de novembro de 2016

A fragilidade de uma sociedade baseada na moralidade científica

No mês de outubro comemoraram-se os sessenta anos da publicação do célebre ensaio "The Two Cultures", em que o cientista e romancista C. P. Snow defendia a tese de que a ciência deveria sobrepor-se às letras e à filosofia (para nem falar da religião) no guiamento moral da humanidade. Na estréia do livro o crítico Frank Raymond (F. R.) Leavis escreveu um panfleto em que xingava Snow de tudo quanto era nome. Pegou mal. Foi um escândalo, e só contribuiu para consolidar a reputação de Leavis como um touro na loja de louças. Mas hoje sabemos que a idéia de Snow, aplicada universalmente, rebaixou a moralidade pública ao nível da barbárie e contribuiu decisivamente para a deterioração moral da própria ciência, hoje um campo em que a fraude reina soberana. Donde concluo que Leavis xingou pouco.

Estive lendo esses dias o escrito do crítico inglês Frank Raymond Leavis que ele escreveu em resposta ao livro do Snow, As duas culturas. Ele fala tantas coisas horríveis do Snow, que até hoje ninguém gosta de falar desse livro ― “Não, isto é um negócio muito mal educado, não podia ser assim...” Olha, eu acho que foi inteiramente merecido. Por exemplo, o Snow diz o seguinte: “vocês reclamam quando uma pessoa não é capaz de ler Dickens, mas vocês não reclamam quando alguém não sabe a segunda lei da termodinâmica”. Eu nunca conheci em meios literários de alto nível, nem filosóficos, nem humanísticos etc. uma única pessoa que não conhecesse a segunda lei da termodinâmica e não fosse capaz de explicá-la. O simples fato de que a palavra entropia seja uma das mais usadas nessas discussões já prova que a segunda lei da termodinâmica para eles é arroz com feijão. No entanto, está provado estatisticamente que a quase totalidade das pessoas que se formam em ciências não são capazes de ler Dickens. Eu tenho uma tremenda dificuldade para ler Dickens. Esses dias eu estava desesperado, porque ao lê-lo, a cada linha aparece uma palavra que eu não conheço ― e olha que leio livros em inglês desde os 15 anos de idade. Dickens é como se fosse um Aquilino Ribeiro, o vocabulário dele é uma monstruosidade. Então, estou lá eu lendo com o dicionário, todo complexado, e daí vejo lá o próprio Snow confessando que um doutor Ph.D em física não é capaz de ler Dickens. Eu lhe digo, ora meu filho, o pessoal dos estudos humanísticos está muito mais informado a respeito de ciência do que vocês estão informados a respeito do resto, porque ciência não é nenhum bicho-de-sete-cabeças. Ciência não é alta cultura, jamais; nenhuma ciência é altacultura. Tanto que você pode chegar a dominar uma ciência inteira sem ter praticamente cultura nenhuma. Se, por exemplo, você quer entender a relatividade especial ― a relatividade geral é mais complicada ―, você precisa apenas de álgebra do ginásio, não é um grande problema. Há outras coisas que para serem entendidas precisam de uma matemática mais complicada, mas aí você não precisa entender pessoalmente, pode pedir a um amigo que lhe explique. Eu tenho muitos amigos físicos e engenheiros, e pergunto para eles. Não é nenhum bicho-de-sete-cabeças. Mas e ler Dickens? Ah, ler Dickens é um bicho-de-sete-cabeças, sim, porque ele escreveu vinte romances e para cada um deles você tem de consultar um dicionário pelo menos quinhentas vezes por volume. É muito mais difícil do que entender a teoria da relatividade. 

A linguagem é tudo para o ser humano. Quando Aristóteles fala no “animal racional”, esse “racional”, do grego logos, quer dizer “linguagem” também, refere-se ao animal que fala. É através da fala, é através da linguagem que você conquista a sua participação nesses vários círculos de intercâmbio humano, desde o círculo da sua família, passando depois pelo círculo do ginásio, até o círculo da alta cultura. Agora, depois do círculo da alta cultura tem mais algo? Tem, porque quando se chega aí você já aprendeu a conversar com os mestres, você se põe diante do olhar deles, sob o julgamento deles ―  não sob o julgamento do Seu Zé Mané ou do seu professor. Não, não, não! Você se põe sob o julgamento dos melhores. Depois você começa a ter uma idéia do interlocutor universal, interlocutor onisciente, e então passa a pensar não mais no que São Tomás de Aquino pensa de você, nem no que Shakespeare pensa de você, mas no que Deus pensa de você. E isso começa a fazer sentido para você. Fora disso, a palavra Deus não quer dizer nada para você; e se você acredita nele ou não, é absolutamente irrelevante. 


O desastre de um país onde se perdeu a alta cultura é que tudo é decidido em função de interesses subjetivos de indivíduos ou de grupos e não existe em parte alguma apreensão mínima sobre a realidade. Estamos em uma situação de descontrole total. E onde há uma situação de descontrole total, há uma espécie de desespero e, naturalmente, as pessoas que estão encarregadas de dirigir a sociedade acabam inventando mais controles para ver se elas adquirem o domínio da situação. Só que esses controles também não incidem sobre a realidade, são coisas aleatórias, absurdas, que não fazem sentido. Por exemplo, o Brasil é um país que tem 50 mil homicídios por ano ― é o país mais assassino do universo –, onde os estudantes tiram as menores notas nos testes internacionais ― é o país mais analfabeto, mais burro do universo.

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